terça-feira, 2 de março de 2010

Palavras sobre o treinamento técnico atoral


A importância concedida ao treinamento técnico para o ator é fio condutor a prolongar-se através do novecento (1) teatral - e ainda na contemporaneidade - afirmando presença desde Stanislavski até Eugenio Barba.Enquanto o mestre russo vai chamá-lo de "trabalho do ator sobre si mesmo", título de seu mais discutido trabalho teórico, Meyerhold preferirá biomecânica; Grotowski o chamará de treinamento - ou training - e Eugenio Barba, treinamento pré-expressivo e lhe conferirá a categoria de termo dicionarizado.

O treinamento atoral tem por finalidade o desenvolvimento técnico do ator num sentido que abrange tanto seu aspecto físico quanto mental.A separação denotada na frase precedente é meramente pedagógica já que neurobiologicamente falando ela é inexistente: não existe uma mente que não seja dotada de um corpo.Corpo e mente são duas instâncias de uma mesma substância que constitui o ser humano ator.

Ser humano ator.Nesse caso também nos deparamos com uma divisão impossível na medida que o ator é, antes de qualquer outra coisa, uma pessoa, e como tal, é reflexo e refletora cultural construto e construtora em constante mobilidade a re-elaborar-se interminavelmente através da vida.

Treinamento, treinamentos.Existem diversos.Cada qual caracteriza-se por uma espécie de personalidade cultural - podemos pensar num treinamento específico de uma determinada tradição teatral - e, na medida em que é assumido pelo ator em seu processo constante de construção de si, ele converte-se em treinamento pessoal, único, porque manifestação da singularidade do artista em construção.

Pensar em treinamento é pensar em vida: o trabalho do ator é sobre si mesmo.

(1) Termo empregado por Marco de Marinis para designar a era teatral compreendida entre a fundação do Théâtre-libre, por Antoine (1887) e a morte de Julian Beck em 1985 - que ao lado de sua esposa, Judith Malina, fundou o Living Theatre em 1947.

Para os que desejam se aprofundar:


ARTAUD, Antonin: O Teatro e Seu Duplo. São Paulo.Martins Fontes.3a Edição 2006.Trad.Teixeira Coelho.

ASLAN,Odette.O ator no século XX.evolução da técnica/problema da ética.Trad.Rachel Araújo de Baptista Fuser, Fausto Fuser e J.Guinsburg.São Paulo:Perspectiva, 2007.


BARBA,Eugenio & SAVAREZI, Nicola. A Arte Secreta do Ator: dicionário de Antropologia Teatral.Campinas:HUCITEC-UNICAMP,1995. Trad.Luís Otávio Burnier,Carlos Roberto Simioni, Ricardo Puccetti,Hitoshi Nomura,Márcia Strazzacappa,Walesca Silverberg e André Telles.

STANISLAVSKI,Constantin.El Trabajo del Actor Sobre Si Mismo.Buenos Aires:Ketzal,1983.Trad.Nossa.

Um comentário:

  1. Esse blog é um achado!
    Parabéns e obrigada por compartilhar tanto!

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