sábado, 26 de novembro de 2011

Fausto no espelho:


Partamos do princípio de que a história, passada, é transmitida através do discurso escrito. Depois de Marx, sobretudo, a historiografia se reduziu a isso: a análise da relação dialética entre os opressores e os oprimidos, cuja síntese constitui a condição de cada ente, então, reduzido ao seu aspecto político. Ocorre que a filosofia marxista é ateia em si, e, a partir de então, a religião é compreendida não em sua dimensão histórica e teológica envolvida na ideia de uma entidade transcendente, senão somente como o "ópio" que sustenta o povo em sua condição de oprimido. Todo erro tem um que de verdade, e percebendo a medida da verdade, reluz a dimensão do equívoco: a revolução sempre veio de cima e foi financiada pelo capital - concordaria Marx. O opúsculo marxista fecha com chave de ouro: "proletários, uni-vos!" Mas a história mostra que as ideias de Marx, quando aplicadas no mundo real, alimentam o espírito opressor que resiste no próprio humano, desde sempre, movido não apenas por seu aspecto político, como peça de um jogo dialético materialista, mas como indivíduo inserido na História - com H maiúsculo, conceito que se corroi junto a falência da metafísica. A revolução russa caminha para o totalitarismo de Stalin, a chinesa, no de Mao, a cubana apresenta-se em seu quadro paradoxal: Che Guevara, assassino sanguinário que hoje tange as roupas vermelhas de quem não conhece essa história a fundo, mas tem pelo líder argentino - nem cubano era! - muitas vezes uma relação que substitui aquela que um religioso teria com as figuras sacras: é o demônio alçado à categoria de santo, o líder político que se apresenta como deus.

Como sempre foi, como é, como sempre será, as revoluções partem de cima. O grande giro revolucionário que nasce a partir do marxismo, maquiando alguns de seus aspectos e reformando outros, dá-se com Antônio Gramsci: o marxismo cultural. Na perspectiva gramsciana, a revolução deve ser compreendida antes como processo que como um ato de rebeldia direto. É através Gramsci que Marx se insere na cultura por meio da educação, de uma pedagogia do oprimido, e, com o freudo-marxismo de Hebert Marcuse, abraça a psicanálise e a psicologia: o "mal estar na civilização" que Freud nota em seu emblemático ensaio, se transforma numa condição própria do capitalismo.

No que tange a teologia, a filha de Marx nesse campo é a "teologia da libertação", professada com a lamoriosa veemência de um típico revolucionário pelo teólogo brasileiro Leonardo Boff. Toda a teologia pressupõe uma filosofia: a tese da consubstanciação, definida pelos primeiros padres filósofos da Igreja Católica nos primeiros séculos do cristianismo, por exemplo, nasceu de um debate prolongado tecido entre a comunidade de teólogos cristãos da época com base na filosofia grega e nos textos bíblicos. A teologia da libertação nasce do enlace entre a teologia cristã, pautada, pois, pela narrativa bíblica, e a filosofia marxista. A partir dessa ótica, a história do povo hebreu pode ser compreendida como uma grande epopeia da libertação do povo oprimido das garras de seus opressores. Moisés, por exemplo, é símbolo do heroi libertário que salva Israel do cativeiro egípicio, e Cristo reduz-se a um revolucionário político que prega a salvação dos pobres contra o julgo de seus opressores.


Mas a teologia da libertação reduz a ideia de Deus - metafísico, transcendente, onipotente, onisciente, criador do universo, causa primeira sem causa anterior - ao tempo: concede à criatura o status da criação. A libertação - poucos poderiam perceber o ardiloso sussurrar diabólico por trás do beletrismo intelectual de Fausto irônico - é a libertação, enfim, do julgo do último opressor: o Deus mau, todo poderoso: uma teologia de fundo ateísta: não poderia ser diferente, já que abraça uma filosofia ateísta.


Tá, mas e dai?

E daí que, com a lenta morte da metafísica - que se estende pelo modernismo e se agudiza na pós-modernidade - o sentimento de vazio existencial decorrente da condição de órfão, diria Freud, que via em Deus um reflexo da imagem do pai -  é preenchido com desculpas vendidas no atacado e no varejo: um novo mito, uma nova onda, um nova "tábua de salvação", como um meio de plantar o paraíso na Terra: tudo isso vira artifício na mão de uma pequena oligarquia que sustenta seu poder na ilusão do ópio outro, ateu, e que é vendido pela imprensa comprada pelo capital dessa mesma oligarquia. Todos, então, como soldados bem treinados para o exército anônimo que os convoca, bradam o mais novo bordão aprendido nos canais do YouTube, na Tv, nos jornais, ou mesmo em teorias da conspiração que, porque chamam a atenção, também podem ser usadas como desvio de foco para o quadro geral que nos compreende. Assim, cada um faz de sua própria vaidade um objeto louvável de pregação revolucionária e, juntos, caminhamos pela trilha indicada por um poder anônimo que tem na midio-cracia sua máscara maquiavélica.

Não me espanta que o ateísmo ganhe força nesse estado de coisas, e que muitas vezes seus partidários apelem para seu ódio como um tipo de argumento, projetando-o na imagem de Deus. O homem moderno é Fausto sedento, e tudo indica que não aprendemos com a História, que, na verdade,  a história é uma falácia tendenciosa que semeia o ódio pela imagem de Deus, face outra de nossa imagem...

... num reflexo monstruoso eu observo meu rosto no espelho: sou mortal, e tenho em mim as sementes da destruição: o que direi a mim mesmo, no silêncio da minha consciência, no instante final, quando o finito se depara com o mistério da eternidade?


quarta-feira, 23 de novembro de 2011

Compartilhem


Dias atrás, Palden saiu do monastério, cobriu-se com gasolina e ateou fogo em si mesma para  protestar contra a repressão chinesa sobre o Tibet. Vamos responder ao seu apelo desesperado criando uma petição massiva para os líderes mundiais tomarem medidas  diplomáticas urgentes.



Há alguns dias, Palden Choetso saiu do convento, despejou gasolina sobre seu corpo e ateou fogo em si mesma enquanto pedia por um "Tibet livre". Ela morreu alguns minutos depois
. Desde o mês passado, nove monges e freiras se auto-imolaram como protesto contra uma crescente repressão chinesa sobre o pacífico povo tibetano. 

Estes atos trágicos são um apelo desesperado por ajuda. Com metralhadoras em punho, as forças de segurança chinesa estão espancando e sequestrando monges, cercando os monastérios, e até mesmo assassinando idosos que defendem os monges -- tudo isso em uma tentativa de suprimir os direitos tibetanos. A China restringe severamente o acesso à região. Mas se conseguirmos persuadir alguns governos a enviarem diplomatas e expor essa crescente brutalidade, poderemos salvar vidas.

Temos de agir rapidamente -- essa situação horrível está saindo do controle por trás de uma cortina de censura. Cada vez mais temos visto que quando os próprios diplomatas são testemunhas das atrocidades, eles são motivados a agir, e aumentam a pressão política. Vamos responder ao apelo trágico de Palden e criar uma petição massiva para que seis líderes mundiais, que têm maior influência sobre Pequim, enviem uma missão ao Tibet e se posicionem contra a repressão. Assine a petição urgente:

https://secure.avaaz.org/po/save_tibetan_lives/?vl 

terça-feira, 15 de novembro de 2011

A morte da metafísica e uma desculpa pra preencher o vazio:




O ateísmo cientificista que se dissipa como vírus pelas redes sociais é a mais recente moda revolucionária: ateus, uni-vos, parece bradar Dawkins, Hitchens e Dennet. A ideia mesma do ateísmo tem raiz diabólica - independente de ler-se esse adjetivo como referência à metáfora ou ao fato - remonta mesmo a narrativa bíblica sobre a criação da humanidade em que o homem é tentado pela serpente à provar da àrvore cujo fruto traria o  conhecimento do bem e do mal:
E disse a mulher à serpente: Do fruto das árvores do jardim comeremos, mas do fruto da árvore que está no meio do jardim, disse Deus: Não comereis dele, nem nele tocareis para que não morrais. Então a serpente disse à mulher: Certamente não morrereis. Porque Deus sabe que no dia em que dele comerdes se abrirão os vossos olhos, e sereis como Deus, sabendo o bem e o mal. E viu a mulher que aquela árvore era boa para se comer, e agradável aos olhos, e árvore desejável para dar entendimento; tomou do seu fruto, e comeu, e deu também a seu marido, e ele comeu com ela. Gênesis 3:2-6

 Seria Nietzsche, o filósofo alemão, que, no século XIX, comentando a passagem acima colocada, diria que Deus, ao criar o homem "havia criado para si um rival. A ciência torna-o igual a Deus - tudo está acabado para sacerdotes e deuses quando o homem se torna homem de ciência". Segundo Nietzsche, a "moral" da história do Éden seria a de que "a ciência é a coisa proibida em si". Ao longo de seu discurso - aqui faço referência à obra "O anticristo", cuja primeira edição data de 1888 - ele insinua-se em alguns momentos com o darwinismo, então incipiente, e encerra com uma condenação feérica contra o cristianismo fundada em sete artigos que concluem o livro. 

O século XIX é também o berço do socialismo, que dá seu primeiro grito de guerra com Marx e Engels em seu "Manifesto do partido comunista". No opúsculo marxista o também alemão - "está provado que só é possível filosofar em alemão", diria Caetano - propõe que a história pode ser compreendida como o desenvolvimento da luta de classes ao longo do tempo e evoca a luta do proletariado contra a burguesia opressora: "proletariado, uni-vos!", é o grito de guerra que conclui seu texto.

Freud, por sua vez, busca explicar como a fé em Deus origina-se, sob o ponto de vista psíquico. Quando nos encontramos no âmbito da questão, em Freud, três textos são basilares: Totem e Tabu, O futuro de uma ilusão e Moisés e o monoteísmo. No primeiro, o ... alemão (!) sugere que o culto ao totem - animal adorado como entidade sagrada em comunidades tribais - teria surgido com base no trauma ancestral advindo do assassinato do pai: o animal sagrado representaria, deste modo, o pai assassinado. A imagem de pai, que percebemos no Pai Nosso, na ideia de um Deus "Pai" todo poderoso, seria reflexo do pai, que, bem sabemos, é mortal, nada mais que um humano como nós: morto o pai - simbolicamente - outro símbolo seria alçado à categoria de pai, mas, desta vez, numa dimensão maior, um super-pai, por assim dizer, um... "Deus, Pai todo poderoso". Em Moisés e o Monoteísmo Freud - um judeu que se tornou ateu - se volta à história de Moisés para tratar de seu caso específico, e o faz com conhecimento de causa, já que, judeu, conhecia muito bem as Escrituras.

Nietzsche por certo foi lido por Freud, que, como aquele, previa a falência da religião, acompanhando mesmo a ideia de Deus. Em seu "Futuro de uma ilusão" ele propõe que dentro de um certo prazo Deus poderia desaparecer do pensamento humano como um devaneio apagado pela sóbria racionalidade.

Darwin, Nietzsche, Marx e Freud dão-se as mãos ao longo do século XX, que assiste ao nascimento do existencialismo de Sartre, que proclama a máxima paradoxal da condenação à liberdade: não existe mais espaço para a metafísica, só nos resta agir dentro do campo do possível enquanto existimos: o homem existe, somente. Assassinado por um lento corte da navalha de Ockham, Deus morre na filosofia junto a toda metafísica e, diria Freud, nos deixa órfãos: a partir de então é enfrentar o complexo da orfandade ou inventar uma verdade melhor: uma religião fashion, um novo drops alucinógeno, ou uma nova utopia, um motivo pra ficar raivoso contra o mundo e tentar plantar o paraíso aqui e agora.

Mas nesse afã nasce a guerra: ela nasce no momento em que eu percebo que o outro é o outro, e que o meu ideal de "mundo melhor" entra em choque com o ideal de "mundo melhor" do outro. E é partindo do pressuposto de que o "mundo melhor" é de fato possível, já palpável como que numa realidade concreta - ainda que não passe de uma imagem que projetamos para um futuro hipotético - que justificamos o ódio a quem discorda: o discordar vira sinônimo de desrespeitar, de ser o inimigo, o culpado por todas as mazelas do mundo, e, na certeza de fazer o bem para o mundo, praticamos o mal (...) tudo isso no mar absurdo do relativismo ético, que abraça essa dança fazendo mesmo do bem e do mal conceitos pares. 


Ou entendemos que o Éden terreno não passa de uma utopia infantil ou então brincamos de rei, e, como se fôssemos Deus, assumimos a tirania que alguns projetam em Deus, passando a cometer as piores barbáries em nome de um futuro hipotético no qual o mundo, enfim, será mais "justo", um mundo "melhor", adjetivos que assumem significados diferentes de acordo com cada moda revolucionária.

O homem contemporâneo: um Fausto revoltado.

quinta-feira, 10 de novembro de 2011

Luiz Felipe Pondé no Roda Viva:

 
 
 

"Eu acho que o viagra fez mais pela humanidade do que 200 anos de marxismo" - Luiz Felipe Pondé

Assistam também as demais partes.