terça-feira, 16 de fevereiro de 2010

Pra que teoria ?





O intenso volume de leituras ao qual um estudante de artes cênicas se depara tão logo chega a uma universidade pode assustar aqueles que antes de entrar para o meio acadêmico não demonstravam muita preocupação com a história da arte teatral.


Ao enfrentar a nova situação o estudante pode postar-se de duas formas: ou encara o novo desafio como uma oportunidade de aprimoramento pessoal e busca, através do estudo teórico-prático da área pesquisada um meio de desenvolvimento pessoal, ou, numa atitude oposta, entrega-se a tentação do ócio e usa o seu tempo para atividades que lhe sejam mais aprazíveis do que a companhia de um livro.Este texto destina-se àqueles que tomaram a primeira opção como uma atitude concreta e nessa procura descobriram o prazer do diálogo com aqueles que no passado já se fizeram as mesmas perguntas que agora nós nos fazemos.Como ressalta Patrícia Leonardelli:


"A busca por tradição parece ser um comportamento relativamente comum em estudantes de artes cênicas.Acredito não se tratar apenas da solidão dos órfãos, da busca por possíveis ascendências, cujo registro de trabalho, já legitimado, possa orientar suas práticas,pois tal necessidade é própria da área do estudante de qualquer área do conhecimento".


Entretanto, cabe comentar que o material com o qual trabalhamos é de uma complexidade tal que não cabe em palavras. Nossa matéria prima é aquilo que mantém-se num nível pré-semântico, mas que, por ser linguagem, deve constelar-se em signos audio-visuais. Como escreve Eugenio Barba: "Apenas a ação é viva mas apenas a palavra permanece".


A ideia de que a ação em sua realidade constantemente atualizada no aqui e agora – e portanto inapreensível pela palavra – pode nos servir de pressuposto para a leitura de qualquer livro de história, seja esta a história dos espetáculos teatrais, das pessoas que os engenharam ou da época na qual se encontravam: lemos o passado com olhos contemporâneos.


Ler com olhos contemporâneos e pessoais.Esta foi a postura assumida por Meyerhold, Surlejitski, Tchékhov, Stanislávski, e também por seu influenciado Grotowski, que em 1980 disse que


"Stanislavski estava sempre a caminho.Fez as perguntas fundamentais no campo da profissão.Se se trata das respostas, entre nós descubro de maneira mais evidente as diferenças (...) não quero ter alunos.Quero ter companheiros de armas.Quero ter uma fraternidade de armas.Quero ter pessoas afins, inclusive aquelas que estão longe e que, talvez, recebem impulsos de minha parte, mas que são estimulados pela sua própria natureza".


Referindo-se a sua obra mais conhecida, "Em busca de um teatro pobre", Grotowski afirmou sugeriu que léssemos seu trabalho como...


"... um diário de bordo, sobre certo período de nossa busca, entre 1960 e 1965.É assim que se deve tratar deste livro.Não creio que (...) seja uma espécie de doutrina teatral que alguém possa aplicar.Quiça, para alguns, possa funcionar como um desafio ou como uma interrogação, e então pode ajudá-los a buscar a sua própria e verdadeira resposta.Nesse caso está bem.Mas se lhe toma como uma espécie de base para um sistema teatral, sou contra.E nesse caso lamento que o livro exista".



O que sugiro não é, portanto, nenhuma novidade.Devemos sim ler, e ler muito.Mas é preciso que se tome a leitura como um alimento que nos impulsione para a prática e que, no diálogo estabelecido com esta, aponte para novos caminhos que se relacionem com nossa própria individualidade.Somente assim poderemos construir bases artísticas que respeitem as provocações daqueles que, antes de nós, aqui estiveram e lançaram perguntas.


A teoria deve ser encarada como uma pergunta lançada pelos antepassados que clama em eco por respostas pessoais daqueles que hoje em dia se inquietam com as mesmas questões antes enfrentadas pelos antepassados.Mas estas respostas serão pessoais, serão reflexo da situação histórico-cultural contemporânea enfrentada pelos respondedores.


Cada resposta é pessoal e escrita através da ação-vida do sujeito propositor.Ainda que não o assumamos somos todos provocantes e provocados.Sê-lo de forma cada vez mais consciente é um objetivo louvável.

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