quinta-feira, 16 de junho de 2011

Sobre pessoas e árvores:

 

Um carpinteiro ambulante, chamado Stone, viu no decorrer das suas viagens, em um campo próximo de um altar rústico, um velho e gigantesco carvalho. Disse a seu aprendiz, que admirava o carvalho: "Esta árvore não tem qualquer utilidade. Se quiséssemos fazer um barco com sua madeira, ele logo apodreceria; se quiséssemos usá-la para ferramentas, elas logo se haviam de quebrar. Para nada serve esta árvore, por isso chegou a ficar assim tão velha.''


Mas naquela mesma noite, numa hospedaria, o velho carvalho apareceu em sonhos ao carpinteiro e disse-lhe: "Por que você me compara às árvores cultivadas, como o pilriteiro, a pereira, a laranjeira, a macieira e todas as outras árvores frutíferas? Antes de amadurecerem os seus frutos as pessoas já as atacam e violentam quebrando-lhes os galhos e arrancandolhes os ramos. As dádivas que trazem só lhes acarretam o mal, impedindo-as de viver integralmente, até o fim, a sua existência natural. É o que acontece em todos os lugares; por isso esforçome, há tanto tempo, para permanecer completamente inútil. Pobre mortal! Crês que se eu tivesse servido para alguma coisa teria chegado a esta altura? Além disso, tu e eu somos ambos criaturas e como pode uma criatura erigir-se em juiz de outra? Inútil mortal, que sabes a respeito da inutilidade das árvores?"

quarta-feira, 15 de junho de 2011

Filo 2011: loucos, sádicos, e genetianos nos palcos de Londrina.

Mais uma vez: o show não pode parar, e o palco vivo de nossa vida será levado à cena nas apresentações deste ano. O festival trará à cidade de Londrina 12 produções internacionais e 37 produções nacionais. A coreógrafa Débora Colker é uma das presenças mais aguardadas.
Mas aguardadas mesmo são, ao menos para aquele que vos escreve, duas apresentações em especial. A primeira delas é “Perseguição e assassinato de Jean-Paul Marat representado pelo grupo teatral do hospício de Charenton sob a direção do senhor de Sade”, montagem tetral dirigida pelos professores do departamento de música e teatro da Universidade Estadual de Londrina Ceres Vittori Silva e Camilo Scandolara, e que será motivo de retorno de ex-estudantes do curso de Artes Cênicas à pequena Londres.
A segunda – e que coloco como segunda por ordem cronológica, e não de importância – é “Um santo às avessas”, montagem baseada em textos do escritor francês Jean Genet em contato com elementos autobiográficos de cada ator. A produção é dirigida por Aguinaldo de Souza – que também integra o elenco – professor do curso de artes cênicas da UEL. O carinho especial é devido a experiência pessoal de ter feito parte do processo de construção da primeira versão da montagem e composto a música tema da peça. Não mais estarei lá como ator, mas atuarei dissimulado no som da cena, de qualquer forma.

Perseguicao-e-assassinato-de-Jean-Paul-Marat “Perseguição e assassinato de Jean-Paul Marat representado pelo grupo teatral do hospício de Charenton sob a direção do senhor de Sade”.
Data: 17 de junho
Horário: 21 horas
Local: Teatro FILO

Um-Santo-as-Avessas-ft-Camila-Fontes
“Um santo às avessas”
Data: 23 de junho
Horários: 20 horas
Local: Funcart
O FILo é patrimônio artístico da cidade, evento que celebra a diversidade cultural, a ecleticidade das formas e linguagens, e enriquece aqueles que partilham do encontro. Celebre a vida: celebre o teatro. Um ótimo FILo pra todos !
Para saber mais: www.filo.art.br

segunda-feira, 13 de junho de 2011

Muito além do simulacro:

 

Uma constante que se mantém desde a semiologia e da semiótica ao chamado “teatro das energias” e a “fenomenologia” até o aqui e agora da redação sobre a qual o caro leitor se detém e que, em sua relação contigo, detem-te refletidamente (refletida-mente), é o questionamento do significado, sua razão e processo de construção. A grande pergunta por trás do estudo semiótico é: afinal de contas, porque isto significa isto? Numa posição diametralmente oposta àquela que compreende o signo como associado a seu significado de acordo com uma função lógico-causal inexorável e inequívoca, outros preferem contestar a verdade de qualquer signo, diluindo qualquer significado num mar flúido de desenvolvimentos que fragiliza qualquer vínculo entre significantes e significados.

Essas correntes de pensamento são reflexo e espelho do espírito de um tempo que, diria Baumann (2003), “liquefaz” todos os ideais que configuram o espírito moderno. Hoje, em relação a seu corelato histórico, a saber, a pós-modernidade, falamos em um teatro pós-dramático (LEHMANN, 2007), que caracteriza-se pela total autonomia, enfim, do teatro, das sombras de seu fantasma por vezes opressor, a saber, a literatura dramática –  ainda que, é preciso ressaltar, possa ao texto dramático recorrer como pretexto ao texto espetacular – além de sua por sua hibridez e multimidiaticidade. Talvez devêssemos nos perguntar, com Jacó Guinsburg e Silvia Fernandes (2010), se o “pós-dramático” é mesmo um conceito operativo, pergunta essa que é face outra de uma questão mais lata, a saber, se é a “pós-modernidade”, em suma, um conceito operativo ou apenas um delírio coletivo que reflete a áugista do fracasso do projeto moderno.

A sociedade espetacularizada (DEBORD, 1997), faz do espetáculo teatral um desvio na dramaturgia da rua: farois iluminam o asfalto onde um menino fuma crack protegido pela cegueira dos transeuntes que passeiam sedados pelo efeito hipnótico das luzes dos letreiros: são luzes e mais luzes que ofuscam nossa visão, encobrindo a sujeira pra debaixo dos signos. O teatro, lugar de encontro entre o humano e o humano, se vê, a princípio, ameaçado pela “arte na era de sua reprodutibilidade técnica” (BENJAMIN, 1996) que consome personalidades reduzindo-as a reles signos baratos e,  tão frágil quanto a corrupta humanidade ante a mecanicidade virtual da máquina, cede à mágica sedução da fantasia desse carnaval de Fausto.

Grotowski (1976), já notara o risco, e percebera que, se o teatro estava em crise – alguma vez ele não esteve? – isso se devia a uma crise de maior dimensão, que afetava a sociedade (esse simulacro nomeado por outrem) como um todo: não foram apenas os judeus que morreram durante a segunda guerra mundial, mas, com eles, nossos mitos, nossas metanarrativas que agonizaram – continuam agonizando numa morte prolongada – junto a explosão atômica. Metaforicamente, poderíamos pensar em indivíduos sem nome que, sob a alcunha de um conceito bem “operativo”, a saber, o de sociedade, transformam-se em números, signos vazios que operam a massa.

Com Descartes (2001, 1994; ver também REALE E ANTISERI, 1990; BRANDHORST, 2010; e  GHIRALDELLI, 2007) reduzimos a alma a seu referente corporal, a saber, o cérebro, e pudemos manipular o corpo. Com Nietszche, nos vimos livres das amarras de um “Deus Pai”, fruto, talvez, de um tabu arquetípico perdido nos primórdios da humanidade, e com Marx e Engels (2008), vislumbramos a possibilidade da estabilidade social num futuro hipotético sem classes, onde a igualdade entre os homens pudesse enfim ser celebrada como fato: talvez tenha sido no conturbado século XIX que perdemos o fio da meada…

Mas por falar em fio, já me vão as linhas, e muitos livros são muito peso, podendo nada mais ser do que desculpas para nossa própria vaidade, de modo que me despeço deixando-vos uma interessante bibliografia que pode ajudar na investigação do tema aqui aludido, e com a impressão de que, a verdade de qualquer signo acaba diluida no mar flúido de desenvolvimentos que fragilizam qualquer vínculo entre significantes e significados, é porque, antes e durante, diluimos-nos, a nós mesmos, num emaranhado de fluxos contrastantes que pode mesmo fazer com que confundamos a realidade do fato com a realidade do texto.

Jeferson Torres

Bibliografia consultada:

BARTHES,Roland. Elementos da semiologia. São Paulo:Cultrix,1972.2ª edição.Trad.Izidoro Blikstein.

BAUDRILLARD,Jean.À sombra das maiorias silenciosas: o fim do social e o surgimento das massas.São Paulo:Brasiliense,1985.Trad.Suely Bastos.

BAUMAN,  Zygmunt, Modernidad líquida,  Editorial Fondo de Cultura Económica, México DF, 2003.

BENJAMIN, Walter. A obra de arte na era de sua reprodutibilidade técnica. in BENJAMIN, Walter. Arte e política: ensaios sobre literatura e história da cultura. São Paulo: Brasiliense, 1996.

BRANDHORST, Kurt.Meditations on first philosophy: an Endinburgh Philosofical Guide. Great Britain: Edinburgh University Press, 2010.

DEBORD, Guy. A sociedade do espetáculo. São Paulo: Contraponto Editora, 1996.

DESCARTES, René. O discurso do método. São Paulo: Martins Fontes, 2001. Trad. Maria Hermantina Galvão.

_______________.Obra escolhida: Discurso do Método, Meditações, .Rio de Janeiro: Bertrand Brasil,1994.3ª edição.Trad. J.Guinsburg e Bento Prado Jr.

GHIRALDELI Jr., Paulo. O corpo:filosofia e educação.São paulo:Ática,2007.

GUINSBURG,J.,NETTO,J.Teixeira Coelho e CARDOSO,Reni Chaves. Semiologia do teatro. São Paulo:Perspectiva,1978.

GROTOWSKI, Jerzy. Em busca de um teatro pobre. São Paulo: Civilização brasileira, 1976.Trad. Aldomar Conrado.

GUINSBURG, Jacó e FERNANDES, Silvia. O pós-dramático: um conceito operativo?.São Paulo: Perspectiva, 2010.

LATOUR, Bruno. Jamais fomos modernos. São Paulo: Editora 34, 2008.

LEHMANN,Hans-Thies. O teatro pós-dramático. São Paulo:Cosacnayfy,2007.Trad.Pedro Süssekind.

LYOTARD,Jean-Françoise. A condição pós-moderna. Rio de Janeiro:José Olympio Editora,2004.Trad.Ricardo Corrêa Barbosa.

MARTINS,Maria Helena. O que é leitura. São Paulo:Brasiliense,2006 (Coleção Primeiros Passos,74).

MARX, Karl e ENGELS, Friedich. O manifesto do partido comunista. São Paulo: Vozes, 2008.

NIETZSCHE,Friedich. Além do bem e do mal: prelúdio de uma filosofia do futuro. São Paulo:Escala, s/d.2ª Edição.Trad.Antonio Carlos Braga.

NIETZSCHE,Friedich.Genealogia da moral.São Paulo: Escala, s/d.2ª edição.Trad.Antonio Carlos Braga.

PAVIS, Patrice. Dicionário de teatro. São Paulo: Perspectiva, 2007. Trad. Maria Lúcia Pereira J. Guinsburg, Rachel Araújo de Baptista Fuser, Eudynir Fraga e Nanci Fernandes.

____________. A análise dos espetáculos: teatro, mímica, dança, dança-teatro, cinema. São Paulo: Perspectiva, 2005. Trad.Sérgio Sálvia Coelho.

PEIRCE,Charles Sanders.Semiótica e filosofia:textos escolhidos de Charles Sanders Peirce.São Paulo:Cultrix,1975.

PONDÉ, Luiz Felipe. Contra um mundo melhor. São Paulo:Leya Brasil, 2010.

REALE, Giovanni & ANTISERI, Dario.Descartes: o fundador da filosofia moderna. In REALE & ANTISERI História da filosofia: do humanismo a Descartes.São Paulo: Paulus,1990.Trad. L. Costa e H. Dalboso.

ROUBINE,Jean-Jacques. A linguagem da encenação teatral. Rio de Janeiro:Jorge Zahar,1998.2ª edição.Trad.Yan Michalski.

SANTAELLA,Lúcia.O que é semiótica.São Paulo:Brasiliense,1983 – (coleção primeiros passos;103).

SANTOS, JF dos.O que é pós-moderno. 8. ed. São Paulo: Brasiliense, 1990.

domingo, 12 de junho de 2011

Notas sobre simbolismo e realidade:

1. O simbolismo natural

Há três métodos de uso corrente para a explicação do símbolo:

1º O método etnológico, que o refere às intenções e valores de uma cultura em particular ou de várias delas comparativamente.

2º O método psicológico, que os refere às estruturas mais ou menos permanentes da psique humana.

3º O método esotérico (às vezes chamado também tradicional, no sentido estrito que René Guénon confere ao termo), que refere o símbolo a uma intencionalidade supra-humana.

Esses três métodos são redutivistas: os dois primeiros, ostensivamente; o terceiro, veladamente. Reduzem o símbolo a um véu, a um disfarce: de normas culturais implícitas, no primeiro; de anseios ou temores inconscientes, no segundo; no terceiro, de realidades metafísicas.

Nenhum dos três, portanto, nos responde à pergunta: Que é o símbolo? Fingindo respondê-la, substituem-na pela pergunta: De quê o símbolo é símbolo? E, tendo-nos dito o simbolizado, pretendem que aceitemos isso como conceito de símbolo — como um homem que, interrogado sobre o que são as palavras, respondesse indicando as coisas que elas nomeiam.

Esses três métodos desviam a nossa atenção do fenômeno "símbolo" enquanto tal e a dirigem às causas reais ou supostas da produção do símbolo, escorregando do quê para o porquê — o expediente clássico de quem não sabe de quê está falando. Isto não quer dizer, evidentemente, que tudo o que essas teorias tenham a dizer sobre as causas do símbolo seja despropositado ou falso; quer dizer apenas que é destituído de fundamento suficiente e que este fundamento só poderia ser encontrado justamente na investigação que essas teorias eludem e pretendem substituir, que é a investigação do quid — a primeira de todas as investigações, se não na ordem do tempo, ao menos na ordem da prioridade lógica.

Dito de outro modo, esses três métodos tomam por implícito que uma interpretação de símbolos, desde que se feche num sistema mais ou menos completo, coerente e fundamentado, já é, por si, uma elucidação suficiente quanto à natureza do símbolo — confusão idêntica à de quem tomasse a interpretação exaustiva de uma obra poética — ou mesmo de várias — como resposta suficiente à questão: Que é a poesia? Ora, pode ocorrer, por desgraça, justamente o contrário: que a elucidação da natureza da poesia acabe por impugnar todas essas interpretações, por exaustivas e coerentes que sejam, e por mais amparadas que estejam em conhecimentos científicos, revelando nelas algo assim como uma paralaxe, um desvio do eixo de atenção em relação ao centro de interesse do objeto, uma concentração das questões em objetos parecidos, associados ou circunvizinhos, uma metabasis eis allo genos como tão freqüentemente sucede nas investigações científicas não suficientemente ancoradas numa consciência crítico-filosófica das complexidades e peculiaridades do objeto que se pretende investigar.

A estratégia que proponho para a abordagem do símbolo adotará como ponto de partida metodológico a seguinte regra: todo empenho sistemático de interpretação de símbolos deve ser posto entre parênteses como meramente hipotético, até que se alcance uma elucidação suficiente da natureza do símbolo. Esta elucidação, por sua vez, deve ser independente de qualquer chave ou sistema interpretativo ou explicativo-causal previamente dado, por elegante, completo ou prestigioso que seja.

Como objeto inicial da investigação, não admitirei nada mais senão o fato bruto de que existem palavras, grafismos, objetos, entes enfim, aos quais os homens atribuem um tipo especial de significação que denominam "simbólica", diferente de uma outra que denominam "não simbólica". Este é um fato de ordem histórica e cultural. A crença nele subentendida refere-se a uma dualidade de modos de significação. Nossa primeira tarefa será simplesmente verificar se essa dualidade é possível e, se possível, em que pode ela consistir.

2. A perspectiva rotatória

1. Cada termo significa uma constelação de intenções atualizáveis. No curso habitual do pensamento, essas intenções permanecem latentes e em germe, como que comprimidas no invólucro do termo. Não as atualizamos senão quando temos algum motivo especial para fazê-lo. Uma pergunta, uma dúvida, podem convidar-nos ou obrigar-nos a desdobrar as significações que supomos carregar em algum canto obscuro do nosso "interior". Então às vezes verificamos que elas não estão lá; foram-se, ou então a enumeração não vem tão completa quanto esperávamos.

2. Esse caráter meramente potencial da intenção significante revela-nos que, na comunicação habitual, as funções expressiva e comunicativa da linguagem ( K. Bühler ) prevalecem amplamente sobre a função denominativa, com a qual contamos, apenas, como com uma reserva bancária sobre a qual passamos cheque após cheque sem verificar o saldo.

3. A filosofia analítica pretende suplantar as "imprecisões" da linguagem corrente, explicitando até o extremo limite as intenções e significados latentes e submetendo-os à crítica filosófica. Mas uma certa latência e imprecisão não são inerentes à natureza mesma do pensamento, da percepção e do próprio ser das coisas? Uma explicitação plena de todos os significados só é realizável sob a forma de um sistema ideal de conceitos e juízos, que por sua vez não se atualizará na consciência todo de uma vez, mas parte por parte, enquanto as demais partes permanecem latentes no fundo. Ou seja, a consciência que temos desse sistema terá ela mesma a estrutura de perspectivas rotatórias que observamos na vida psíquica corrente e na comunicação habitual: um conceito vem para a frente, enquanto os outros vão para o fundo, desaparecem como conteúdos atuais da consciência para se tornarem esquemas compactos de conteúdos meramente atualizáveis.

4. Uma cadeia lógica não é, assim, mais conhecível de instantâneo e no todo do que uma casa ou uma paisagem. Temos de percorrê-la, e quando no fim cremos conhecê-la "no todo", o que sobrou em nossas mãos não é mais que um esquema simplificado, ou seja, uma potência de reatualizar no tempo a cadeia percorrida. "Conhecer" um raciocínio é poder reproduzi-lo na seqüência, não é reproduzi-lo no todo e com todos os detalhes num instante sem duração.

5. Forçosamente, cada passo que é atualizado na consciência implica a virtualização dos outros, seu recuo para o depósito do meramente atualizável.

6. É isto o que quero dizer com "perspectiva rotatória". É a estrutura do ato mesmo de conhecimento, seja do conhecimento pelos sentidos, seja do mero pensamento.

7. É, por outro lado, a estrutura mesma da fenomenalidade como tal: nenhum objeto, nenhum ser, pode se apresentar a um determinado sujeito cognoscente na totalidade instantânea dos seus aspectos. É ilusão pensar que o objeto meramente ideal pode fazê-lo. O conceito mesmo de "quadrado" só se apresenta a mim no resumo compacto de um termo, e não no desdobramento completo das propriedades que inclui. Tanto o pensamento abstrato quanto a percepção sensível têm a estrutura de uma perspectiva rotatória: o sujeito cognoscente circunda o objeto tanto quanto circunda o conceito, e o faz precisamente porque seu foco de atenção é circundado pelas latências de inumeráveis objetos, conceitos e signos.

3. Dado, sentido e unidade (I)

A percepção do mundo como amontoado ou coleção de "coisas" ou meros "dados" sem uma conexão espiritual última pressupõe um observador destituído, por seu lado, de sua própria conexão espiritual, do elo interior entre sensação e significado, consciência e ação, antes e depois; um observador estúpido, em estado de divisão hipnótica e quase paralisia catatônica. É curioso, ou mais propriamente absurdo, que o "mundo" fragmentário captado por essa percepção deficiente seja tomado como norma da "realidade" e medida de aferição da validade da conexão interior que apreendemos no universo. A percepção efetiva do real exige, na mais alta medida, as supremas faculdades de síntese, que nos revelam, para lá mesmo da própria unidade física do mundo, a unidade de um "sentido" do mundo para o qual convergem todos os atos conscientes de um homem no mundo, até os mais mínimos. O kantismo e outras escolas que tomam como "realidade" os puros dados sensíveis e reduzem toda síntese a uma contribuição subjetiva que a mente faz ao mundo ignoram que um mundo sem unidade não poderia ser "dado" a nenhum sujeito, para que o ordenasse segundo suas categorias a priori, porque toda ordenação pressupõe a unidade consciente do sujeito e esta unidade só se realiza, precisamente, nos instantes de coesão ótima em que o mundo lhe aparece como uno, não como um amontoado fragmentário de sensações. A fragmentação do mundo em "dados" supostamente pré-categoriais só se obtém por dois meios: pelos estados patológicos de divisão do eu ou por esforço pessoal de abstração imaginativa; no primeiro caso, o sujeito está separado de si funcionalmente; no segundo, hipoteticamente e, em suma, fingidamente. Os "dados" não são prévios à síntese significativa; obtêm-se, ao contrário, por divisão abstrativa desta última, seja como resíduos de uma sonolência alucinatória, seja como meras formas fantasiosas de um mundo construído pela imaginação. Os famosos "dados" são em suma construídos, e a unidade espiritual última do mundo, em vez de construída, é dada. Por isto fracassam todas as tentativas de construí-la (ou mesmo de reconstruí-la) por meio de criações mentais, seja na arte, seja na ciência, seja na metafísica. A verdadeira metafísica não constrói um mundo, não é metafísica construtiva; é fundamentação discursiva da unidade do mundo espontaneamente percebida. Daí também o fracasso de toda tentativa de "expressar" o sentido último; ele é o pressuposto de toda expressão; é o supremamente percebido, jamais construído; e, fatalmente, só expressamos o que nossa mente constrói. É uma ilusão deduzir, da inexpressabilidade do sentido, sua inapreensibilidade. Ele é inexpressável justamente por ser apreensíveleminenter, por ser "o" aprensível como tal, enquanto todos os demais apreensíveis só são apreensíveis nele e por ele, sendo por isto expressáveis.

Por não fazer parte nem do mundo pragmático que construímos com nossas ações, nem do mundo imaginativo que construímos com nossa arte, nossa ciência, etc., ele acaba por parecer, à reflexão filosófica de primeira instância (reflexão sobre a cultura, sobre o mundo construído pelo homem), como um "x" remoto e distante, ao qual só poderíamos chegar no termo de uma caminhada que começa no "dado" sensível. Mas é uma ilusão de ótica, que inverte a ordem do real; ao sentido não se chega, pois ele é o pressuposto da própria percepção e, mais ainda, da caminhada reflexiva. O objetivo desta não é atingir o sentido, mas recuperar, no nível discursivo (portanto intersubjetivo), a certeza inicial e intuitiva do sentido. O objetivo é tornar patrimônio comum essa certeza inicial e fundamental que o homem só possui enquanto individualidade vivente, não enquanto ser social falante, plural na variedade de seus papéis e idiomas. No curso dessa recuperação, muitos desastres acontecem, que separam o homem da recordação do sentido e o levam a imaginar, seja que pode construir um sentido a partir dos dados, seja que pode encontrar um sentido partindo de dados sem sentido, seja que pode provar a inexistência do sentido ou a separação abissal entre o dado e o sentido, seja que não necessita de um sentido e pode viver entre puros dados. Tal é o panorama da história da filosofia.

As presentes considerações vão um pouco além do que habitualmente se chama "realismo". O realismo afirma somente a realidade do mundo. Elas afirmam que a realidade do mundo é um dado, e que também o são, inseparavelmente dela, a unidade espiritual e o sentido do mundo. Realidade, mundo e sentido não podem ser construídos, seja pelo filósofo, seja pela cultura; só podem, por isto, ser percebidos intuitivamente, subentendendo que a intuição pressupõe um sujeito cognoscente dotado de unidade autoconsciente ótima no momento do ato intuitivo. Todo o trabalho da filosofia - e da cultura - é registrar o mundo intuído e defendê-lo, mediante a faculdade discursiva, da dissolução. E quem o ameaça de dissolução é a própria faculdade discursiva, constitutivamente dupla e auto-antagônica - dialética, em suma - ; dupla pela duplicidade de suas operações (significatio e suplentia), dupla pela duplicidade de suas funções (pensar e comunicar).

4. Dado, sentido e unidade (II)

A percepção imediata do sentido e da unidade do mundo, a que me refiro, é simplesmente o saber imediato que temos acerca do que estamos fazendo nele naquele preciso momento, e de aonde pretendemos chegar em seguida, e de aonde pretendemos que vão dar, no fim, todas as nossas ações. Sem esse pressentimento, seríamos incapazes de dar o próximo passo. Seria tolice imaginar que um homem dá seu próximo passo independentemente de qualquer consideração do que vem depois - um próximo passo isolado, atomístico. O "viver cada momento" é apenas uma figura literária. Aquele que diz "viver o momento" o faz sobre o pano de fundo de toda uma concepção do universo, a qual inclui, forçosamente, uma expectativa de continuidade. Tanto que, se fosse informado de sua morte iminente, seu momento seguinte seria bem diferente daquele que experimentaria se lhe dissessem, ao contrário, que a dama de seus desejos o espera no quarto ao lado.

A expectativa de uma continuidade que se prolonga para além da morte, seja na forma de uma vida celeste, seja sob a forma da simples permanência temporal do mundo após nossa saída dele, seja sob qualquer outra forma que se imagine, é uma conditio sine qua non do agir humano, e está subentendida mesmo nas nossas ações mais mínimas e corriqueiras. Mas essa diversidade de imaginações e suposições traduz apenas a variedade de reações individuais a uma experiência que é única e a mesma em todos os seres humanos: a experiência do movimento geral do cosmos, que vai para alguma direção e nos leva. Essa experiência pode ser vivenciada de maneira consciente, com mais probabilidade, na infância, mas em geral ela se torna inconsciente pelo fato mesmo de ser a mais constante e ininterrupta experiência humana, fundamento e condição de toda e qualquer experiência em particular.

5. Unidade e unidades

Mas, se a unidade do mundo é dada e a unidade de cada ente conhecido é apenas potencial, atualizada parcialmente e passo a passo pela perspectiva rotatória, uma conclusão se segue imediatamente: cada ente conhecido só é uno e só é ente a título de imago mundi. Da unidade total extraem sua unidade as unidades parciais.

Olavo de Carvalho

Estas notas serviram de base para as aulas do Seminário de Filosofia de janeiro de 1998, onde receberam extensos desenvolvimentos orais. — O. de C.

25/12/97

Fonte: <http://www.grupotempo.com.br/tex_oc_simboreal.html>, visitado em 12 de junho de 2011

quarta-feira, 1 de junho de 2011

Arte e Revolução:

 

MEyerhold

Foto: Vsevólod Meyerhold (morto fuzilado em 1940 por aqueles que permitiram que a psicopatia revolucionária ofuscasse seu sentido de realidade e capacidade de se apiedar pelo drama alheio).

O estudante sério, como se sabe, é uma espécie da qual presumo haver salvado da extinção alguns dos poucos exemplares que ainda restam no Brasil, e até fomentado a geração de uns quantos em proveta, longe daquela raça temível de predadores que são os pedagogos e os burocratas do Ministério da Educação.

Um daqueles raros sobreviventes envia-me uma pergunta das mais interessantes, merecedora de resposta em jornal. Quer ele saber se o artista, o poeta, o escritor infectado de mentalidade revolucionária está irremediavelmente perdido para a criação artística ou pode, pelo gênio pessoal, transcender nela a mecanicidade grosseira do pensamento revolucionário.

Se aceitamos a definição croceana da arte como “expressão de impressões” – e até hoje não vi motivo para rejeitá-la –, a resposta à pergunta torna-se auto-evidente. A mentalidade revolucionária é essencialmente a inversão do sentido do tempo, a arrogância psicótica de interpretar o presente e o passado à luz das virtudes imaginárias de um futuro hipotético. O futuro enquanto tal não pode ser objeto de impressão, só de conjeturação imaginativa ou de construção mental. Uso estes dois termos para designar atividades diametralmente opostas: a primeira consiste em ampliar simbolicamente as impressões do presente e jogá-las num futuro imaginário, como fizeram George Orwell e Aldous Huxley em “1984” e no “Admirável Mundo Novo” respectivamente. A segunda inventa o futuro e remolda à luz dele as impressões do presente. É esta a única via aberta à “arte revolucionária”. Mas é certo que essa arte já não é mais arte e sim mero revestimento estético de uma construção conceptual. Cabe aí a distinção que Saul Bellow fazia entre os “intelectuais” e os “escritores”, estes incumbindo-se do ofício propriamente artístico de transmitir as “impressões autênticas”, aqueles tratando de deformá-las segundo uma construção hipotética.

A mentalidade revolucionária é intrinsecamente hostil à criação artística, porque volta as costas às “impressões autênticas”, reconstruindo o mundo segundo os cânones de uma “segunda realidade” artificial e artificiosa. O termo “segunda realidade” é de Robert Musil, e quem o leu sabe do gigantesco esforço que esse escritor dispendeu para restaurar a arte do romance numa atmosfera cultural em que as idéias e ideologias pareciam ter sepultado esse gênero sob a grossa placa de chumbo das construções conceptuais.

Isso não quer dizer, no entanto, que todo artista politicamente comprometido com uma causa revolucionária permaneça escravo dela no exercício do seu mister criativo. A história das artes no século XX – e especialmente da literatura – é uma galeria de consciências dilaceradas entre a fidelidade ao futuro hipotético oferecido pelas ideologias e a realidade presente das “impressões autênticas”.

Olavo de Carvalho

Fonte: http://www.olavodecarvalho.org/semana/080725dce.html

A liberdade do indivíduo e a ditadura das classes: um comentário a partir da fala de Clodovil

 

Discordo de Clodovil quando este afirma que os gays não devem ter orgulho do que são. Penso que, ao contrário, eles podem e devem, sim ter orgulho de serem o que são. A sexualidade é dimensão mesma da individualidade de cada um: somos seres sexuais, e devemos ter orgulho de quem somos, mas respeitando aqueles que discordam em gênero, número e grau de nossos pontos de vista e atitudes.

Não chamaria um gay de "anormal" - o que fica subentendido na frase "eu nasci de um homem normal e uma mulher normal" - porque eu penso que cada um é normal em si. Não considero a homossexualidade uma doença, uma anomalia, aberração ou coisa do tipo.

Se todos fossem respeitados igualmente, como seres individuais, singulares, que são, não precisaríamos de nada disso. Pergunto-me: quando que essa máxima, escrita na constituição brasileira: todos são iguais perante a lei, sem distinção de natureza: deixará de ser uma piada e passará a ser uma atitude, um ideal a ser praticado antes que proclamado ?

Não obstante, sou contra a aprovação do projeto de lei nº 122, de 2006. Na verdade, considero mesmo a lei nº 7.716, a qual o projeto visa revisar, um equívoco, e de aqui em diante tentarei expor minha visão sobre o caso. Minha posição, que certo contrasta diametralmente daquela da maioria, dá-se em função da minha descrença em qualquer "luta de classe". Não compreendo o complexo social a partir desta perspectiva. Pra mim o buraco é mais em baixo - bem mais embaixo - trata-se de uma guerra que se dá no indivíduo, para o indivíduo, contra si mesmo e contra seu próximo, por vezes a favor deste, num contínuo de tensão em distintas gradações que amplifica-se no cosmo social. Compreendidos como "classe", seja ela a classe dos gays, dos heteros, dos católicos, dos evangélicos, dos budistas, dos proletários ou da burguesia, resumimos o inominável à nomenclatura do grupo. Este grupo resume o indivíduo àquilo que o define, a saber, a "classe". É esse pensamento - de raiz marxista - que leva à redução do indivíduo àquilo que compreendemos por sua classe: não é o cristão, o ser humano individual e único, mas apenas "mais um cristão", ou seja, mais um engravatado, que vai à igreja, paga dízimo, lê a bíblia, etc: apenas mais um da "classe". O mesmo reducionismo aplica-se aos homossexuais: não é o homossexual, o ser humano único e singular, o indivíduo, mas "apenas mais um gay", apenas mais um "da classe", que é assim e assado, pensa assim, age assim, como o grupo, como "a classe". Não obstante, não observo com bons olhos a aparente pregação da liberdade total, a liberação de todas as drogas, e o ataque cada vez maior aos valores sobre os quais construímos a civilização moderna. Nesse ponto concordo com Clodovil: é preciso cuidado para não confundir liberdade com libertinagem. A democracia, quando mal gerida, caminha em direção à libertinagem, e é esta, o caos anárquico das vozes dissonantes sem direção, que abre espaço à imposição de regimes ditatoriais, pois uma sociedade que não conserva uma certa solidez em suas bases éticas fragiliza-se àquela que é mais impositiva e inflexível. A ética relativista pós-moderna caminha nesse sentido, e me faz vislumbrar uma ditadura mundial para um futuro próximo, o que consoa com as mais terríveis profecias apocalípticas.

Concluo meu discurso retomando o terceiro parágrafo desta redação:

Se todos fossem respeitados igualmente, como seres individuais, singulares, que são, não precisaríamos de nada disso. Pergunto-me: quando que essa máxima, escrita na constituição brasileira: todos são iguais perante a lei: deixará de ser uma piada e passará a ser uma atitude, um ideal a ser praticado antes que proclamado?

Diante do raciocínio classificatório que qualifica grupos antes de considerar as atitudes particulares de cada indivíduo sujeitas aos vigores da lei, considerando todos como iguais perante a constituição, não sou otimista quanto ao futuro.

E para aqueles que quiserem estudar um pouco o assunto, fica uma sugestão de leitura nem um pouco “politicamente correta”:

NOELLENEUMANN, Elisabeth. La espiral del silencio: opinión pública, nuestra piel social. Paidós, 2010

quarta-feira, 25 de maio de 2011

Um texto politicamente correto:




Tudo é relativo. Não existe Verdade, apenas opinião, e cada uma tem a sua. É mais aconselhável se manter, no mais das vezes, o mais neutro possível. Evite discutir religião, política ou coisas do tipo. Não cabe falar palavrão, bradar em voz alta uma opinião contrária àquela da maioria, ou se mostrar, o mínimo que seja, "politicamente incorreto". Não proteste, não seja como esses baderneiros que só se preocupam em bater bumbo nas ruas, protestando por isso ou aquilo. Não se exalte, faz mal ao coração.

Não proclame, em hipótese alguma, nenhuma máxima que considere uma Verdade. Afinal de contas, desde Nietzsche - talvez antes, desde Kant ? - essa ideia já caducou. O errado pode ser certo, o bom, mau, é tudo a mesma coisa, uma questão de gradação: é relativo, apenas um ponto de vista.   Não coma demais, evite gordura, manere no sal, seja comedido, também, no açucar, pratique esportes, não jogue lixo no chão, respeite as autoridades, não faça piadas com gays - ou melhor, homossexuais, não diga "bicha", nem "viado", "traveco" então nem pensar - prefira "homossexual". Em uma piada que faça graça com gays, prefira dizer:  

O homossexual mantinha, todas as noites, uma relação homoafetiva com seu amásio.  

À 

O viado trepava toda noite com seu bofe.  

Tal homofobia, dissimulada nas nem um pouco inocentes palavras, é preconceito criminoso, homofobia, e como tal deve ser condenada, pois denigre a imagem da oprimida minoria sofrida dos travecos, digo, dos homossexuais tão castigados pelos seus algozes.   Devo um pedido de desculpas, nesse momento, a uma outra minoria, a saber, àquela dos negros, povo marcado pela escravidão, mancha vergonhosa em nossa história. É politicamente incorreto, e o melhor é dizer judiar. Ops !! Não !! Me desculpem os judeus, pois pode parecer que, nesse momento, eu esteja cometendo um pecado mortal ao fazer uso de tal termo vergonhoso. Judiar não, prefiro ... calma, deixe-me recorrer ao pai-dos-burros, que nesse momento me serve, na verdade, como pai dos “politicamente corretos":  

Judiar = 1. Escarnecer, mofar, zombar: 2. Fazer sofrer; atormentar, fazer judiaria2; fazer sofrer; atormentar, maltratar:

Denegrir = 1. Tornar negro, escuro; enegrecer, escurecer: 2. Fig. Macular, manchar: 2 & 3. Fig. Desacreditar, desabonar, infamar: & V. p.  4. Tornar-se negro, escuro; enegrecer-se, escurecer-se. 
Fonte: Dicionário Aurélio da Língua Portuguesa.

  Ufa ! Por um momento pensei que cometeria um deslize verbal e me flagrariam sendo politicamente incorreto. Outro dia eu confesso que comi um pedaço de bolo. Eu engordei dois quilos em um mês ! Será que vou morrer ? Será que vou pro inferno? Será que estou causando mal a algum esfomeado na África ? Será que estou denegrindo, quer dizer, judiando, quer dizer, zombando de alguém ?

Espero que tenha sido politicamente correto até aqui.  Se bem que devo confessar já ter rido de algumas piadas sobre gays, digo, de homossexuais, e muitas vezes as ouvi da boca de amigos meus, gays! Será que isso é homofobia, e, neste caso, sou também homofóbico e não havia percebido isso até agora ? E se a tal da lei contra a homofobia for aprovada, será que poderei ser preso por ter escrito esse texto ? Mas e os gays que contam piadas de gays, será que eles também são homofóbicos ? Mas isso não seria incoerente ? Ah, esqueci, pode ser, ou não, mas dá no mesmo, já que tudo é relativo.

Calma gente, não estou querendo ser o opressor de nenhuma minoria injustiçada tá bom ? Nossa, agora me dei conta de que a próxima minoria a protestar por proteção poderá ser a dos portugueses. Afinal de contas, eles são minoria no país não é? Será que, nesse caso, não se trataria de crime de lusofobia ou algo do tipo, e então qualquer piadista de plantão deveria vigiar a língua também para não cometer tamanha blasfêmia ?

E se um gay, por motivo qualquer que seja, agredir um hetero, será que poderá ser preso por heterofobia ? Ops, me esqueci que são os homos, e não os heteros, a minoria injustiçada da moda. Há algum tempo, me lembro bem, eram os negros, e, como vislumbrei no parágrafo anterior, logo logo poderão ser os portugueses. E se eu for processado pelo simples fato de ter escrito "denegrir" num texto, e tal ou qual considerar tal atitude um flagrante caso de preconceito racial e me processar por preconceito racial ?! Será que eles me judiariam na cadeia ?! Ai não... eu disse judiar ? Judiar não ! Não sou nazista !   Calma gente! Eu tentei ser politicamente correto até aqui, juro que tentei, mas confesso que sê-lo é um saco, por vezes um sufoco. Será que fui politicamente incorreto ao confessar essa opinião? 

Quer saber ? Acho que vou fumar um cigarro pra distrair, mas me lembrarei de fazê-lo escondido. Amanhã de manhã eu tomo um café, como meu pão - pão ligh ok ? - e vou ler algum livro. Talvez uma leitura mais ousada, mas cuidado, pois ousar demais pode não ser politicamente incorreto. Vou ler “1984”, de George Orwell, talvez alguma coisa do Olavo de Carvalho ou "A aspiral do silêncio", da Elizabeth Noelle-Neumann.  Conhecem ?

Um sorriso irônico subtamente imrompe em meu rosto blasé. Olho os livros na minha estante toda cheia de palavras que só tem valor àqueles que sabem ler.

Jeferson Torres

Nota: Volto a esse texto hoje, dia 25 de abril de 2012, ou seja, quase um ano depois de tê-lo escrito, e dou-me conta que, pelo menos no que diz respeito a escolha do dicionário, respeitei o politicamente correto e recorri ao Aurélio. Fosse ao Houaiss, poderia acabar caindo no politicamente incorreto, mesmo que sem querer, e assim ferindo a honra do povo cigano. São essas coincidências que acontecem diariamente, por pura sorte, que me fazem crer no "politicamente correto" e seguir em frente, sempre irônico e um tanto ácido, porque pra quem sabe ler, um pingo é letra.