sexta-feira, 20 de abril de 2012

O que aconteceu com a razão?



O artigo que segue é um texto do escritor e filósofo Roger Scruton traduzida para o português pelo também filósofo e professor de filosofia André Assi Barreto. Ele aborda um tema muito caro à filosofia contemporânea, o relativismo moral, buscando traçar suas raízes desde o iluminismo. Dele nada retirei ou acrescentei. Simplesmente posto para que vocês possam lê-lo criticamente, concordando ou discordando do autor, contra-argumentando, enfim, questionando o texto. Será que tudo é mesmo relativo, e nenhuma verdade pode ser apreendida?

O que aconteceu com a razão?

O Iluminismo tornou explícito o que esteve por muito tempo implícito na vida intelectual da Europa: a crença que a investigação racional conduz à verdade objetiva. Até mesmo aqueles pensadores iluministas que desconfiavam da razão, como Hume, e aqueles que tentaram circunscrever seus poderes, comoKant, nunca abandonaram sua confiança na argumentação racional. Hume opôs-se à ideia de uma moralidade racional; mas ele justificava a distinção entre o certo e o errado em termos de uma ciência natural das emoções, ficando implícito que poderíamos descobrir a verdade sobre a natureza humana e construir sobre ela uma fundação firme. Kant pode ter rebaixado a “razão pura” à condição de uma história cheia de ilusões, mas colocou a razão prática em seu lugar, argumentando em favor da validade absoluta da lei moral. Nos 200 anos subsequentes, a razão manteve sua posição de árbitro da verdade e fundação do conhecimento objetivo.

Penso porque quero descobrir a verdade. Se não há verdade, porque penso? Não é verdade que penso?
A razão está agora num processo de retração, tanto como ideal quanto como realidade. Em seu lugar adveio a “visão de um ponto de vista externo” – que põe toda nossa tradição de aprendizado em xeque. Somos avisados que o apelo à razão é um mero apelo à cultura ocidental, que fez da razão sua pedra-de-toque e clama possuir uma objetividade que nenhuma cultura poderia possuir. Ademais, ao afirmar que a razão é seu fundamento, a cultura ocidental ocultou seu etnocentrismo pernicioso; travestiu as maneiras ocidentais de pensar como se tivesse força universal. A razão, portanto, é uma mentira e ao expor essa mentira revelamos a opressão que jaz no coração da cultura ocidental. Por trás do ataque à razão espreita-nos outra e mais virulenta hostilidade: a hostilidade à cultura e ao currículo que herdamos do iluminismo.
Se examinarmos os gurus do novo establishment universitário, aqueles cujos trabalhos são, amiúde, citados no interminável fluxo de artigos devotados a desbancar a cultura ocidental, descobrimos que eles são todos oponentes da verdade objetiva. Nietzsche é um favorito, já que ele asseverou explicitamente: “Não existem verdades,” ele escreveu, “apenas interpretações”. Agora, ou o que Nietzsche disse é verdade – o que no caso não o é, já que não existem verdades – ou é falso. Dito o suficiente, você pode imaginar. Mas não: a questão pode ser asseverada de maneira menos brusca e o paradoxo, velado. Isso explica o apelo a pensadores mais recentes – Michel FoucaultJacques Derrida e Richard Rorty – que devem sua eminência intelectual não a seus argumentos (dos quais eles têm muito poucos) mas ao papel que empenham em dar autoridade à rejeição da autoridade e ao compromisso com a impossibilidade de compromissos absolutos. Em cada um deles você encontrará a visão de que a verdade, a objetividade, o valor e o significado são quimeras e que tudo que podemos ter é a morna segurança da nossa própria opinião.
É inútil argumentar contra esses gurus. Nenhum argumento, por mais racional que seja, pode conter a enorme vontade de acreditar que os torna populares para seus leitores. Afinal de contas, um argumento racional assume precisamente o que eles colocam em xeque – a saber, a possibilidade de se argumentar racionalmente. Ao menos um deles – Michel Foucault – foi objeto de uma hagiografia, Saint Foucault por David Halperin, tomando nota da mensagem libertadora contida em seu ataque ao pensamento estruturado. Mas cada um deve sua reputação a uma nova espécie de fé religiosa: a fé na relatividade de todas as opiniões, incluindo esta.

Friederich Nietzsche: o niilismo não vale nada.
A verdade, nos diz Foucault, não é um absoluto que pode ser compreendido e avaliado de alguma forma transhistórica, como que por meio dos olhos de Deus. A verdade é filha do “discurso” e como o discurso muda, o mesmo vale para a verdade contida nele. O que o termo “discurso” significa? Olhe para qualquer periódico acadêmico da área de humanidades e você o encontrará no centro de milhares de debates artificiais: “Falocentrismo ocidental e o discurso de gênero,” “O discurso da supremacia branca nos romances de Conrad,” “O discurso da exclusão: uma perspectiva homossexual,” etc. Ao descrever os argumentos como “discurso” você os observa por detrás, no estado mental em que surgiram. Você não confronta mais a verdade ou razoabilidade da opinião de alguém mas foca diretamente na força social que fala por meio dela. A questão deixa de ser “O que tu estas a dizer?” e torna-se, em vez disso, “De que perspectiva estas a falar?”. Este foi o triunfo de Foucault, prover uma palavra que nos capacita a reanexar todo pensamento a seu contexto e fazer do contexto algo mais importante que o pensamento.

Oras... se tudo é questão de opinião, então é melhor deitar o sarrafo logo de uma vez e pular a parte da discussão!
O discurso, para Foucault, é o produto de uma época e existe em virtude do poder social vigente. É o que Marx chamou “ideologia”: uma coleção de ideias que não possuem autoridade por si mesmas mas que disfarçam e mistificam a realidade social.  Não há nada mais para a verdade a não ser o poder que a considera conveniente; e ao desmascarar o poder, desestabelecemos a verdade. Em qualquer época existem aqueles que recusam o poder vigente. Estes são denunciados, marginalizados – até mesmo encarcerados como loucos. A voz deles é a voz da “não-razão” e para os que estão na posição de autoridade o que eles proferem não é verdade, mas um delírio. Entretanto, Foucault deixa claro, não há nada de objetivo nessa denúncia de loucura: não é nada além de um dispositivo pelo qual o poder estabelecido, o poder da ordem burguesa se sustenta, salvaguardando sua própria “verdade” contra o discurso rival que o rejeita.
Foucault e seus seguidores generalizaram este argumento, ao sugerir que a visão tradicional do homem, da família, das relações sexuais e da moralidade sexual não possuem autoridade além daquela fornecida pelo poder que a sustenta. Em seus três volumes do History of Sexuality, Foucault dá um passo adiante. O prazer sexual, ele afirma, não é intrinsicamente problemático, não há razão na natureza das coisas para controlá-lo ou suprimi-lo. Se o sexo for “problematizado”, a fim de se proibir alguns prazeres e encorajar outros, então este é um fato social curioso, que pode ser explicado mas nunca justificado. Ele descreve seu próprio estudo do sexo, tomando emprestado de Nietzsche, como uma “genealogia” da moral – como uma explicação das crenças que, por não terem nenhuma validade intrínseca ou verdade, devem ser explicadas em termos de seu contexto social, e só assim justificadas.
Tal modo de vida foi extremamente útil a Foucault, cuja homossexualidade descontrolada não sofrera nenhuma censura. Sua morte por SIDA pôs um fim à sua predação sexual. Mas não limitou sua influência: pelo contrário, coroou seu pensamento com um halo de correção política. Foucault não estava meramente a advogar em favor de prazeres imediatos, foi um mártir deles. Ainda, essa nuvem de correção não deve levar-nos a aceitar sua desmistificação da moral sexual. Para a “genealogia” de Foucault não há distinção entre causa e efeito. Por mais que Foucault diga o contrário, pode ser objetivamente verdadeiro que a sociedade e as realizações pessoais são mais facilmente garantidas pelo casamento heterossexual do que pela transgressão sexual e que o capital político e cultural de uma época é mais facilmente garantido onde as pessoas devotam-se a criar seus filhos em seus lares. Em vez de ser um efeito do poder social, a velha moral poderia ser sua causa. No que concerne a isso – causa e efeito – o método diagnóstico de Foucault não pode nos dizer nada. A suposição é que, ao ligar uma crença ao poder dos que o sustentam, a alegação em favor da objetividade é desfeita. Mas esta suposição pode ser o polo oposto ao da verdade.
Popular pela mesma razão que a análise do poder de Foucault é a desconstrução associada com Jacques Derrida. Ninguém sabe – ou ao menos ninguém explicou até agora – o que a desconstrução é. Mas é sua excessiva obscuridade que constitui uma ampla parte do seu apelo. Ao oferecer muitas palavras sem sentido, o desconstrucionista é capaz de fortalecer sua suposição mais importante: que a significação é impossível. Não existe tal coisa como o significado objetivo, decifrável de uma palavra ou de um argumento. No jargão oficial, não existe “significado transcendental”. Cada palavra, uma vez proferida, está refém de uma interpretação e a decisão de interpretar uma palavra de uma maneira ou outra é, em última instância, análise política – as únicas questões reais são aquelas levantadas por Lênin: “Quem?” e “A quem?” Quem está interpretando e contra quem enquanto vítima? Se os velhos homens brancos (Dead white males) monopolizaram a interpretação de Jane Austen, por exemplo, surpreende que as interpretações oficiais dos romances de Austen não reconheçam algum lugar real para as mulheres, bem como para suas aspirações? Surpreende que estes romances sejam construídos como justificativas, em vez de repúdios ao casamento nos moldes burgueses? Confrontados por um texto do cânone tradicional, podemos desconstruí-lo de acordo com nossa vontade, pois as únicas restrições que os afligem são aquelas que nós escolhemos. O criticismo desconstrutivo é como uma produção moderna do teatro tradicional: o texto é lido contra si próprio, de modo que signifique qualquer coisa que a crítica ou o produtor bem escolha. E, invariavelmente, o propósito é político: desbancar as velhas autoridades em nome da liberação.

Questione TODA autoridade. É? Por que eu deveria?
O “pragmatismo” de Richard Rorty opera de maneira similar [3], alcançando conclusões políticas antevistas por meio de um truque manual repetido. Mas como o pragmatismo é um produto nativo americano com uma história respeitável, as pessoas nem sempre o consideram com tanta suspeita que ele agora (graças a Rorty) merece. Vale a pena, portanto, examinar suas credenciais subversivas.
Grosso modo, o pragmatismo é o ponto de vista de que “verdade” significa “útil”. A crença mais útil é aquela que me proporciona a melhor maneira de lidar com o mundo: a crença que, quando colocada em ação, assegura o maior sucesso. Obviamente que essa não é uma caracterização suficiente da diferença entre o verdadeiro e o falso. Qualquer um que esteja a buscar uma carreira numa universidade americana descobrirá que as crenças feministas são úteis, da mesma forma como as crenças racistas eram úteis ao apparatchikuniversitário na Alemanha nazista. Contudo isso dificilmente mostra que essas crenças sejam verdadeiras.
Mas então, o que realmente queremos dizer com “útil”? Uma sugestão é esta: uma crença é útil quando é parte de uma teoria de sucesso. Mas uma teoria de sucesso é aquela que faz previsões verdadeiras. Dessa maneira andamos em círculos, definindo a verdade por meio da utilidade e a utilidade por meio da verdade. De fato, é difícil encontrar um pragmatismo plausível que não incorra nisso: uma proposição verdadeira é aquela que é útil de forma que proposições verdadeiras são úteis. Impecável, mas vazio.
A ameaça da vacuidade não detém Rorty, que vê o pragmatismo com uma arma contra a ideia tradicional de razão. Mesmo tendo falhado miseravelmente em sua tentativa de dizer o que o pragmatismo realmente é, esta falha não é de interesse de seus seguidores, que usam isso em seu favor, da mesma maneira que o seguidores de Foucault usam em seu favor a ausência de conteúdo da “genealogia” da moral de Foucault e a impenetrável ausência de sentido da desconstrução. É suficiente que Rorty invoque seu pragmatismo como um tipo de encanto mágico contra a ideia tradicional de razão e a favor da causa do relativismo cultural. É isso que o garante o status de guru em nossos departamentos de humanidades.

A modinha é ser "mente-aberta", mesmo que isso signifique não ter nada na cabeça.
Em suas palavras: “Os pragmatistas[1] veem a verdade como… o que seja bom para acreditar… eles veem a lacuna entre a verdade e a justificação não como algo a ser transposto por isolamento de uma forma de racionalidade natural e transcultural que pode ser usada para criticar certas culturas e elogiar outras, mas simplesmente como a lacuna entre o bom real e o melhor possível… Para os pragmatistas, o desejo pela objetividade não é o desejo de escapar as limitações de uma comunidade, mas simplesmente o desejo de acordo intersubjetivo possível, o desejo de estender a referência do “nós” tanto quanto pudermos”. Em outras palavras, o pragmatismo nos permite rejeitar a ideia de “uma racionalidade… transcultural”. Não há lugar para as ideias tradicionais de objetividade e verdade universal; tudo que importa é aquilo com que concordamos.
Mas quem somos nós? E com o que concordamos? Voltemo-nos aos ensaios de Rorty e você logo descobrirá. “Nós” somos todos feministas, esquerdistas [4], advogados da liberação gay e do currículo aberto: “nós” não acreditamos em Deus ou qualquer religião herdada; tampouco as tradicionais ideias de autoridade, ordem e autodisciplina têm peso para nós. “Nós” mudamos de opinião de acordo com o significado dos textos ao criar por meio das nossas palavras um consenso que nos inclua. Nada nos constrange, além da comunidade a qual escolhemos viver. E como não existem verdade objetiva mas apenas nosso próprio consenso auto-engendrado, nossa posição é inacessível de qualquer ponto de vista exterior. O pragmatista não apenas pode decidir o que pensar; ele pode proteger a si mesmo de qualquer um que não pense o mesmo que ele.
Um verdadeiro pragmatista, sem dúvida, inventará a história da mesma forma que ele inventa todo o resto, ao persuadir-’nos’ e fazer com que concordemos com ele. Entretanto, vale a pena observar a história, apenas para verificarmos o quão paradoxal e perigosa é visão de Rorty acerca do intelecto humano. Aummah islâmica – a sociedade de crentes – era e continua sendo o consenso mais extenso que o mundo já conheceu. Ela reconhece expressamente que oconsenso (ijma‘) serve de critério para a verdade, em realidade, um substituto para ela, além de estar engajada em um incessante esforço de incluir o maior número de possíveis na sua abrangente primeira pessoa do plural. Ademais, o que quer que Rorty entenda por crenças “boas” ou “melhores”, o muçulmano pio deve, certamente, acreditar que detém algumas das melhores: crenças que trazem segurança, estabilidade, felicidade, suporte para o mundo e uma consciência satisfeita que explode os kafirs, que pensam de maneira diferente.
Ainda assimnão permanece, em algum lugar, aquele incômodo sentimento de que aquelas crenças agradáveis podem não ser verdade e de que as opiniões frágeis do ateu pós-moderno podem tirar vantagem delas? De acordo com a concepção pragmatista de Rorty, isto não é algo que um pragmatista possa dizer. Afinal, ateus pós-modernos, à parte de muçulmanos pios, não compõem uma comunidade – nem mesmo uma comunidade imaginária. Eles não têm credo ou catecismo, nenhum texto sagrado, nenhum consenso estabelecido. Ainda assim Rorty é um ateu pós-moderno. Por quê? Não porque ele pertença a uma comunidade de descrentes, mas porque ele acredita que o ateísmo seja verdade. O pragmatismo que ascende o consenso ao lugar da verdade torna-se um logro.
Em seus próprios olhos, o iluminismo envolveu a celebração de valores universais e uma natureza humana comum. A arte do iluminismo percorreu vários outros lugares, outros tempos e outras culturas, numa heroica tentativa de justificar uma visão do homem como livre e autocriado. Esta visão inspirou e foi inspirada pelo currículo tradicional, cujo qual tem sido o primeiro alvo de questionamento e preocupação da universidade pós-moderna. Essa preocupação explica a popularidade de outro guru relativista – Edward Said, cujo livro Orientalism, mostrou como descartar o iluminismo em si, como uma forma de imperialismo cultural. O Oriente aparece na arte e literatura Ocidental, diz Said, como algo exótico, irreal, teatral e, portanto, frívolo. Longe de ser um generoso reconhecimento de outras culturas, a arte orientalista da Europa iluminista é uma tentativa de apequená-las, reduzi-las a episódios decorativos dentro do grande império do progresso Ocidental.
O argumento de Said anda de mão em mão junto com aqueles que advogam um currículo multicultural. O currículo tradicional, um produto do iluminismo, é, somos ensinados, monocultural, devotado a perpetuar o ponto de vista da civilização Ocidental como inerentemente superior às suas rivais. Ela também é patriarcal, produto dos velhos homens brancos europeus que há muito perderam sua autoridade. E sua pressuposição de uma perspectiva racional universal, ponto o qual de onde toda a humanidade pode ser estudada, não é melhor que a racionalização das suas ambições imperialistas. Em contraste, nós, que vivemos num ambiente amorfo e multicultural da cidade pós-moderna, devemos abrir nossos corações e mentes a todas culturas e não ater-nos a nenhuma delas. O resultado inescapável disso é o relativismo: o reconhecimento que nenhuma cultura tem qualquer apelo especial à nossa atenção e que nenhuma cultura pode ser julgada ou descartada desde fora.
Mas uma vez mais há um paradoxo. Aqueles que advogam esta abordagem multicultural são, via de regra, veementes em descartar a cultural Ocidental. Said não é uma exceção. Enquanto exortam-nos a julgar outras culturas em seus próprios termos, também pede que julguemos a cultura Ocidental de um ponto de vista desde fora – pô-la contra alternativas e julgá-la, adversamente, como etnocêntrica e racista.
Mas as críticas feitas à cultura Ocidental são verdadeiras confirmações do que pretendem criticar. É graças ao iluminismo e sua concepção de valores humanos como universais que a igualdade sexual e racial tem tanto apelo sobre nosso senso comum. É a visão universalista do homem que faz exigir tanto da literatura e da arte Ocidental – mais do que nós jamais deveríamos exigir da arte e da literatura de Java, Bornéu ou da China. É a tentativa de tentar abarcar outras culturas – uma tentativa que não tem paralelo na arte tradicional da Arábia, Índia ou África – que faz da arte Ocidental refém da crítica severa e capciosa de Said. E é apenas uma visão muito estreita da nossa tradição artística que não descobre nela um multiculturalismo que é muito mais imaginativo que qualquer coisa agora ensinada sob essa alcunha. Nossa cultura invoca um sentimento histórico de comunidade, enquanto celebra valores humanos universais. É enraizada na experiência cristã que bebe de uma fonte rica em sentimentos humanos que ela difunde por mundos imaginários. DoOrlando Furioso de Ariosto ao Don Juan de Byron, do Poppea de Monteversi aoHiawatha de Longfellow, do The Winter’s Tale ao Madama Butterfly, nossa cultura tem, continuamente, aventurando-se em território espiritual que não tem lugar no mapa cristão.

O próprio conceito de harmonia entre valores culturais comuns, a idéia de direitos humanos naturais e a Justiça como valor transcedental são frutos da cultura ocidental tão abominada pelos acadêmicos. Ao atacar o eurocentrismo em favor de uma abordagem que valorize mais outras culturas, estamos novamente usando valores eurocêntricos de raízes humanistas (greco-judaico-cristãs?).
O iluminismo, que pôs diante de nós um ideal de verdade objetiva, também dispersou a névoa da doutrina religiosa. A consciência moral, livre da observância religiosa, começou a ver a si própria desde fora. Ao mesmo tempo, a crença numa natureza humana universal, tão poderosamente defendida por Shaftesbury, Hutcheson e Hume manteve o ceticismo cercado. Seus contemporâneos iluministas teriam considerado absurda a sugestão que, ao traçar o curso da simpatia humana, Shaftesbury e Hume estavam meramente descrevendo um aspecto da cultura “Ocidental”. Para eles, as “ciências da moral”, incluindo o estudo da arte e da literatura, incorporavam o que T. S. Eliot posteriormente chamou de a “busca comum pelo julgamento verdadeiro”. E essa busca comum ocupou os maiores pensadores da era vitoriana, que, mesmo quando davam os primeiros passos na sociologia e na antropologia, acreditaram na validade objetiva dos seus resultados e numa natureza humana universal que seria revelada neles.
Tudo isso mudou completamente. Em lugar da objetividade nós só temos “intersubjetividade” – em outras palavras, consenso. Verdades, significados, fatos e valores são agora considerados como negociáveis. O curioso, entretanto, é que este confuso subjetivismo está de mãos dadas com uma censura vigorosa. Aqueles que colocam o consenso no lugar da verdade encontram-se distinguindo o consenso falso do verdadeiro. Assim, o consenso de Rorty exclui rigorosamente todos os conservadores, tradicionalistas e reacionários. Apenas os esquerdistas podem pertencer a ele, apenas feministas, radicais, gays, ativistas e antiautoritários podem tirar vantagem da desconstrução; tal como apenas os oponentes do “poder” podem fazer uso das técnicas de sabotagem moral de Foucault; e tal como apenas os multiculturalistas podem beneficiar-se das críticas de Said aos valores do iluminismo. A conclusão inescapável é que os gurus de hoje em dia advogam a subjetividade, relatividade e o irracionalismo não para permitir todas as opiniões mas precisamente para excluir as opiniões de pessoas que acreditam nas autoridades tradicionais e na verdade objetiva.
Se você estudar as opiniões que prevalecem nas academias modernas, descobrirá que elas são de dois tipo: aquelas que emergem do constante questionamento dos valores tradicionais e aquelas que emergem da tentativa de prevenir qualquer tentativa de questionar as alternativas esquerdistas. Todas as crenças subsequentes são efetivamente proibidas nos campusnormais da América: (1) A crença na superioridade da cultural Ocidental; (2) a crença de que podem existir distinções moralmente relevantes entre sexos, culturas e religiões; (3) a crença no bom gosto, seja em literatura, música, arte, amizade ou comportamento e (4) a crença nos costumes sexuais tradicionais. Você pode dar crédito a essas crenças, mas é perigoso confessá-las e ainda mais perigoso defendê-las, pois você pode ser acusado de discurso odioso (“hate speech”) – em outras palavras, de julgar adversamente alguns grupos de seres humanos. E a hostilidade a essas crenças não está fundada na razão e nunca é suscetível a justificação racional. A universidade pós-moderna não derrotou a razão mas a substituiu por um novo tipo de fé – uma fé sem autoridade e sem transcendência, uma fé ainda mais tenaz, exatamente por não se reconhecer enquanto tal.
A religião do politicamente correto não está confinada à América. Recentemente, Glen Hoddle, o treinador de futebol inglês, expressou uma visão (perfeitamente aceitável quando proferida por um representante de alguma minoria étnica) que pessoas deficientes estão sofrendo nesta vida por pecados cometidos em outra. Ele foi castigado por seus empregadores, pela mídia e pelo governo, em uma notável série de julgamentos. Então ele foi demitido. Tais caças às bruxas estão cada vez mais frequentes na Grã-Bretanha, são conduzidas de fora por cortes de burocratas e comissões quase-independentes como a Comissão para Igualdade Racial. E o princípio orientador é sempre “culpado até que se prove inocente”.
Similarmente, você irá constatar que todos aqueles que aderem aos “métodos” relativistas que Foucault, Derrida e Rorty introduziram nas humanidades são veementes apoiadores de um código politicamente correto que condena a divergência em termos absolutos e intransigentes. A teoria relativista existe com o propósito de suportar uma doutrina absolutista. Daí a extrema confusão que adentrou o campo da desconstrução quando foi descoberto que um de seus líderes, Paul de Man, já foi simpático aos nazistas. É manifestamente absurdo sugerir que um desacordo semelhante seria causado caso a descoberta fosse que Paul de Man já foi comunista – mesmo se ele tivesse feito parte de algum dos grandes crimes comunistas. Em tal caso, ele teria se aproveitado do mesmo endosso cheio de compaixão que foi oferecido a comunistas e companheiros de viagem como Lukács, Merleau-Ponty e Sartre. O ataque ao significado feito pelos desconstrucionistas não é um ataque aos “nossos” significados, que permanecem exatamente o que eles sempre foram: radicais, igualitários e transgressivos. É um ataque aos significados “deles” – significados sequestrados de uma tradição de pensamento artístico e filosófico e passados de uma geração à outra pelas maneiras tradicionais de ensino.
Vale a pena manter tudo isso em mente quando consideramos o estado atual da vida intelectual na Europa e na América. Embora áreas como a filosofia tenham, por muitos anos, permanecido imunes ao subjetivismo que prevalece, elas também estão começando a sucumbir a ele. Professores que permanecem apegados ao que Rorty chama “um tipo natural e transcultural de racionalidade” – em outras palavras, quem crê poder dizer algo permanentemente e universalmente verdadeiro acerca da condição humana – consideram cada vez mais difícil despertar interesse nos estudantes, para quem a negociação tomou o lugar da argumentação racional. Expor a ética de Aristóteles e mostrar que as virtudes cardeais por ele defendidas fazem parte da nossa felicidade para nós modernos tanto quanto elas faziam para os antigos gregos é fazer um convite à incompreensão. O máximo que um estudante moderno pode administrar é a curiosidade: esta, ele confessará, é a maneira como eles encaravam a questão. No que diz respeito a mim, quem sabe?

Declarar amor ao Ocidente: etnocentrismo, machismo patriarcalista, xenofobia e intolerância. Declarar ódio ao Ocidente: ?
Desse estado de ceticismo confuso, o estudante pode dar um salto de fé. E o salto nunca é para o currículo tradicional, o antigo cânone, a crença em padrões objetivos e formas de vida estabelecidas. É sempre um passo adiante, no mundo da escolha e da opinião livres, no qual nada tem autoridade e nada é objetivamente certo ou errado. Nesse mundo pós-moderno, não existe julgamento adverso – a menos que haja um juiz adverso. É um mundo que se assemelha a um parque de diversões, no qual todos têm direito à sua cultura, ao se “estilo de vida” e às suas opiniões.
E esta é a razão, paradoxalmente, pela qual o currículo pós-moderno promove a censura – da mesma forma que o esquerdismo o faz. Quando tudo é permitido, é vital proibir o proibidor. Todas culturas sérias são fundadas em distinções entre certo e errado, verdadeiro e falso, bom e mau gosto, conhecimento e ignorância. Era à perpetuação dessas distinções que as humanidades estavam, no passado, devotadas. Dessa forma, o ataque pós-moderno ao currículo e a veemente tentativa de impor um padrão “politicamente correto” – significa, com efeito, um padrão de não-exclusão e não-julgamento.
Mas o ataque ao currículo tradicional é infundado, pois o currículo tradicional jamais foi monocultural. Nossos ancestrais estudaram – e quero dizer que estudaram de fato – culturas que lhes eram inteiramente estranhas. Aprenderam as línguas e a literatura da Grécia e de Roma, vieram a compreender, amar e até mesmo, à sua maneira, adorar os deuses pagãos; traduziram a partir do hebreu, sânscrito e árabe; vagaram pelo mundo com uma curiosidade insaciável, acreditando com toda força que nada que fosse humano lhes seria estranho. Fazia parte da natureza do estudante universitário do século XIX aprender a língua do país para o qual viajasse, bem como estudar sua literatura, religião, história e costumes – a ponto de, amiúde, tornar-se um nativo, como muito dos britânicos na Índia e muito dos indianos na Grã-Bretanha. O iluminismo europeu, levado pelo comércio e pelas aventuras coloniais ao litoral do mediterrâneo oriental, inspirou a classe intelectual do Egito e do Líbano, tendo o aprendizado universal sempre em vista. Edward Said é um produto disso: ele é uma prova viva contra suas próprias teorias.
Tudo isso traz sobre nós a natureza profundamente paradoxal do novo relativismo. Enquanto afirma que todas as culturas são iguais e que fazer julgamentos entre elas é absurdo, o novo relativismo apela secretamente à crença oposta. Seu empreendimento é convencer-nos de que a cultural ocidental e o currículo tradicional são racistas, etnocêntricos, patriarcas e, portanto, além do limite da aceitabilidade política. Por mais falsas que essas acusações sejam, elas pressupõem a visão universalista que declaram ser impossível.
A consciência subliminar desse paradoxo explica a popularidade dos gurus que discuti. Seus argumentos pertencem a uma nova espécie de teologia: a teologia do politicamente correto. Como em toda teologia, não é a qualidade do argumento, mas a natureza da conclusão que torna a discussão aceitável. As crenças relativistas existem porque sustentam uma comunidade, a novaummah dos desenraizados e dos descontentes. Dessa maneira, em Rorty, Derrida e Foucault, nós encontramos uma duplicidade de propósitos: de um lado, desmontar todas as alegações de verdade absoluta e por outro, sustentar as ortodoxias sobre as quais suas congregações dependem. O mesmo raciocínio que pretende destruir as ideias de verdade objetiva e valor absoluto impõe o politicamente correto como absolutamente obrigatório e o relativismo cultural como objetivamente verdadeiro.
Qual deve ser nossa resposta a isso? Claramente, a primeira conclusão a que devemos chegar é que o novo relativismo é autocontraditório. Seu caráter absolutamente censorioso já é prova disso, também o é sua constante pressuposição da perspectiva “transcultural” que ele nega que seja possível. Sem tal perspectiva, a própria ideia de pluralidade de culturas não poderia ser expressa. E qual perspectiva é essa – a “do ponto de vista além da cultura” – senão a perspectiva da razão?
A segunda conclusão que podemos tirar é que, intelectualmente falando, o projeto do Iluminismo, como Alastair MacIntyre chamou – o projeto de derivar uma moralidade objetiva a partir da argumentação racional – é uma realidade para nós tanto quanto fora para Kant ou Hegel. O problema se encontra em fornecer fundamentos racionais para a moralidade ou para princípios objetivos de crítica. O problema se encontra em persuadir as pessoas a aceitá-los. Embora existam aqueles que, como John Gray, que nos dizem que o projeto falhou, a falha se encontra neles e não no projeto. É possível fornecer uma defesa racional da moralidade tradicional e mostrar por que a natureza humana e as relações pessoais a requerem. Mas o argumento é difícil. Nem todos podem segui-lo, tampouco todos têm o tempo, a inclinação ou a sensibilidade necessária para perceber o que está em questão. Dessa maneira, a razão, que gera questões fáceis enquanto provê apenas respostas difíceis, muito provavelmente mais destruirá do que fundamentará nossas devoções.
O que está errado com o projeto Iluminista não é a crença que a razão pode prover uma moralidade transcultural. Pois bem, essa crença é verdadeira. O que está errado é a suposição de que as pessoas têm algum interesse, ainda que débil, na razão. A falsidade dessa suposição está aí, para todos verem, em nossas academias: no relativismo de seus gurus e no absolutismo equivocado – absolutismo sobre as coisas erradas e pelas razões erradas, absolutismo que exclui tudo ao seu redor, exceto os relativistas.

Notas:
[2]    É estudante de Filosofia e responsável pelo sitehttp://www.andreassibarreto.org/.
[3]    Uma apreciação crítica, em meu entender, definitiva, do pragmatismo de Rorty pode ser lida em “Rorty e os animais”, In: CARVALHO, Olavo de. O Imbecil Coletivo, 3ª ed., Rio de Janeiro: ed. Faculdade da Cidade, p. 60-68, 1996. (N. Do T.)
[4]    A palavra usada por Scruton aqui é liberal, que em inglês tem o significado do português “esquerdista”. É aos esquerdistas (mormente americanos) que Lionel Trilling se refere em seu The Liberal Imagination (1950), como mostrou Olavo de Carvalho em “Uma lição tardia” (http://www.midiasemmascara.org/artigos/cultura/12531-uma-licao-tardia-1.html).

Fonte: 

quarta-feira, 18 de abril de 2012

Pela liberdade de informação na rede:


Quem estudou um pouco sobre história e não se deixa levar pelas aparências, com certeza não rejeita qualquer interpretação dos fatos que se apresente sob o título de "teoria da conspiração", mas, antes, se permite investigar até onde uma hipótese aponta para a realidade dos fatos ou mascara dados à favor do lado A ou do lado B. Nesse complexo jogo político, cada indivíduo é uma célula que constitui importante agente motor desse organismo vivo: a internet. Antes de ser uma rede "computadores", a internet é uma rede de pessoas que interagem. Interajamos pela liberdade de comunicação, o livre fluxo de informação, contra o vendaval de forças contrárias que nos querem silêncio. 

Peço encarecidamente que os leitores do blog assinem o abaixo-assinado contra o projeto de lei que paira no congresso americano à sombra dos jornais e TVs silenciosas. Tendo como desculpa melhorar a atuação de agentes contra supostos crimes virtuais, a liberdade é cerceada, e a ideia pode ser aceita docilmente. O fato é que os órgãos de investigação tem inteligência para investigar casos de crime cibernético como já ocorreu por diversas vezes, mas como a rede tem sido usada para espalhar algumas informações "valiosas demais", a censura é uma resposta cogitada, ainda que sob outros nomes ou tendo como pretexto outros motivos. Não permitamos que isso ocorra. 

Para assinar o abaixo-assinado:



Mais notícias sobre o caso:





E pra quem ainda acha que 1984 não passa de um romance orweliano fictício sem nenhum traço de realidade, conheça mais sobre a obra e o contexto histórico de seu autor.


segunda-feira, 16 de abril de 2012

Todos iguais, ou seja, diferentes.



Recentemente o cartaz promocional da parada gay de Maringá causou certa balbúrdia devido a presença de um símbolo religioso no material. Em resposta a uma postagem no facebook eu escrevi esse texto que decidi publicar aqui no blog:


Dado que a religião católica - e a cristã em geral - tem na homossexualidade um pecado, o cartaz é deveras ofensivo, à medida em que contrapõe o símbolo religioso ao do movimento homossexual. Fala-se muito em diversidade, direitos iguais e coisas do tipo, mas quando algo assim acontece, de novo, e de novo, e de novo, e novamente, percebo que essa ideologia da "igualdade", não passa de uma piada, que as pessoas são diferentes, e que umas acabam odiando outras de um jeito ou de outro. A ideia mesma de "normalidade" pressupõe uma outra, de igualdade, que é no mínimo irônica em face da multiplicidade de cores, orientações sexuais, religiões. No que diz respeito à religião, eu me sentiria sim ofendido em ver um símbolo que considero sagrado contraposto na formação de uma bandeira de uma causa que não apoiasse. É uma dialética interessante, mas só poderia causar aversão mesmo, e quem produziu o material com certeza previu os resultados que, diga-se de passagem, são bons para o movimento homossexual, à medida em que, de novo, reforça a ideia de opressão. Mas o caso é uma harmonia de tensões, e quanto mais a ideia de igualdade quer se afirmar, mais percebemos que ela não passa de um sonho, uma utopia.


A verdade é que homossexuais e heterossexuais são sim diferentes, não são iguais. A diferença se encontra no fato de uns se voltarem ao mesmo sexo e outros ao diferente. Se isso é fruto da prática ou tem raiz genética, ou os dois, é uma questão que não dá pra responder, e como não dá de forma decidida e inequívoca, cada um forma sua opinião ou fica em cima do muro. Mas não são iguais. Assim como um branco não é igual um negro, um gordo não é igual um magro, um alto não é igual um baixo, um loiro não é igual um careca, um vegetariano não é igual um onívoro, um japonês não é igual um alemão, e um alemão alto e cabeludo, tatuado, não é igual um japonês baixo careca sem tatuagens no corpo. Essa aura de igualdade paira por sobre as diferenças gritantes, e o fato de cada um desses grupos se apresentar como minoria revoltada produz a confusão: os gays querem seus direitos, e assim se revoltam contra os cristãos opressores, esses, por sua vez, se veem oprimidos pelos islâmicos, e também pelos gays, na mesma medida, e os ateus pelos cristãos, e esses pelos ateus, os negros pelos brancos e esses pelos negros - porque preconceito não tem cor - e os anões pelos altos, os vegetarianos pelos churrasqueiros, tudo numa luta uns contra os outros que clama pela igualdade (...). Respeitar os gays sim, e respeitar quem considera a homossexualidade um pecado, conquanto essa pessoa não decida tomar uma arma qualquer e atentar contra a integridade física do gay,contra sua própria religião, diga-se de passagem. Mas a violência verbal é uma violência física? Se a resposta for sim, então é o caso de permitir uma censura de opinião: se é cristão, diga o que quiser, mas não pregue a homossexualidade como pecado: cale-se. Talvez seja o caso de permitir apenas manifestações de opiniões que se pautem pelo princípio da não-violência, mas mesmo assim a gente acaba caindo num outro problema: o que é ou não ofensivo? A opinião expressa do modo mais calmo pode tornar-se ofensiva em relação ao próximo, é uma questão muito subjetiva. Sendo assim, em última instância, se por homofobia pode ser compreendida a manifestação de opinião de caráter religioso, ou filosófico, seja por meio de texto sonoro e ou visual, que ofenda um cidadão homossexual, então a gente acaba caindo numa censura de opinião à favor de um "mundo melhor". Eu sou contra a censura de opinião, e acho mesmo que mesmo a heterossexualidade pode ser criticada à vontade. A Igreja católica, o cristianismo, o judaísmo, qualquer outro ismo pode. Opinião é opinião. E assim, diferentes, a gente acaba ofendendo mesmo, mesmo sem querer, como o bispo se ofendeu, como o gay se ofende, como eu me ofendo. Se bem que eu não me ofendo assim tão fácil, mas se fosse um bispo, acho que responderia do mesmo jeito. Podem me xingar à vontade tá? Mas sem pegar em armas brancas ou de fogo, por favor.


Decidi não expor o cartaz para não colocar ainda mais lenha nessa fogueira de vaidades.

sábado, 31 de março de 2012

A ditadura da "verdade" e a "verdade" da ditadura:


"Democracia é quando eu mando em você, ditadura é quando você manda em mim" - Millor Fernandes

O Brasil vive um momento histórico: a Comissão da Verdade, enfim. O objetivo é o de desvendar crimes cometidos durante o período de exceção, que perdurou em nosso país por vinte anos. Senso comum, trata-se de uma espécie de uma "treva de vinte anos" que obstacularizou a liberdade de expressão da classe guerreira, bravos heróis libertários à favor da revolução. Caso você, caro leitor, seja como eu um estudante dedicado, saberá que a história, enquanto relato, traz a perspectiva do historiador, daquele que traça o passado à luz de sua cosmovisão e, assim, elabora um retrato do pretérito para os leitores de hoje. 

A estátua que podemos ver à frente do Supremo Tribunal Federal, na capital brasileira, representa uma mulher de olhos vendados, símbolo da igualdade dos homens perante a lei, não obstante saibamos que, na prática, por conta do caráter "partidário" da perspectiva histórica defendida, nada tem de igual, senão que só faz notar as distinções. A tal da comissão da "verdade", terá por objetivo, pois, confirmar a verdade daqueles que já compraram a educação. Seus princípios são os seguintes:

1º) O termo "direita", quando empregado depois da preposição de, para notar posição política, é sinônimo de atraso, inferioridade, vilania, algo que, a princípio, deveria causar vergonha. É com base nesse princípio que diz-se de quem é contra o aborto, por exemplo, que é desumano, mesquinho, hipócrita, moralista "de direita", etc.

2º) Os guerrilheiros que lutaram contra o regime militar no Brasil estão para os membros da classe militar tal como Deus está para o diabo: os primeiros são os bonzinhos, os segundos, miseráveis demônios desumanos. Qualquer tentativa de balanceamento, de determinação de relatividades e contestação dessa versão deve ser imediatamente rejeitada como criação de uma mente "de direita" e, portanto, não-digna de consideração.

A palavra "verdade" tem, portanto, um significado determinado unilateralmente: é a verdade de quem soube driblar o sistema, utilizá-lo como trampolim e, hoje, é alçado à categoria de herói nacional. Para isso a literatura, o cinema, e outras formas de arte bem trabalharam, nada de novo: arte e educação são dois pilares que sustentam a construção da subjetividade dos indivíduos, e como esses não tem tempo para se debruçarem com maior atenção sobre os fatos, analisar várias versões sobre um mesmo ocorrido, e considerarem todas afim de investigar em maior profundidade o problema da "verdade" histórica, o presente texto por certo se reduzirá a um amontoado de rabiscos sem importância. 

A comissão da verdade é uma oportunidade que não pode ser desperdiçada: é hora de abrirem os arquivos da ditadura, e compor uma comissão equilibrada e intelectualmente honesta, a fim de que cada um possa, como que numa confissão, não temer seu passado e revelar seus crimes. Isso vale para ambos: militares e ex-guerrilheiros. Se a comissão da verdade empurrar uma versão da história como verdade inequívoca e registrá-la nos livros, o processo de maquiavélica maquiagem dos fatos continuará a fazer com que a verdade dos fatos seja só, somente e tão-somente aquela estabelecida pelo partido A.


Sou uma vítima desse processo, eu que li Marx ainda com 15 anos de idade e pude, posteriormente, conhecer outros pensadores que se pautaram por Marx para, tendo-o como estímulo, tecer suas considerações sobre a história. Marx defende que a história é determinada pelo conflito entre a classe dominante e a classe oprimida. Em seu contexto histórico, a burguesia e o proletariado ocupam respectivamente essas posições e a justiça plena viria a materializar-se com a união do proletariado contra o julgo da burguesia. Com efeito, as palavras "burguesia", "trabalhador", "operário", "classe", e termos afins, passaram a designar os coitados dos oprimidos, à favor dos quais deveria a luta revolucionária desenvolver-se para a libertação do sistema opressor: o capitalismo vira o problema, e, com efeito, tudo se reduz a uma questão de política e economia. O problema é que mesmo a revolução se transforma num problema econômico...

À uma questão de política e economia transformam-se, nesse jogo, a educação e a imprensa, e com a crise da ética - essa coisa tão "relativa" - o que determina se isso ou aquilo deve ou não ir ao ar, se esse livro didático deve ou não ser distribuído, e se essa lei deve ou não ser aprovada, é o poder econômico que comprou o poder político. Triste fim do afã revolucionário: ver os ideias serem usados como manobra de guerra cultural para fazer das mais execráveis ideias valores ilustres: essa transformação se dá através da educação e pela mentira propagada como verdade da vez, mas tudo bem, porque se tudo é mesmo relativo, tanto faz quanto fez...

Abaixo, alguns depoimentos e opiniões sobre o período de ditadura que contrastam com o que é de praxe, a face da história para a qual não havia me voltado até bem pouco tempo atrás:

Em primeiro lugar, um breve documentário sobre o período: Reparação:


A seguir, outros vídeos com depoimentos de importantes nomes da época sobre o regime militar e a atuação dos guerrilheiros revolucionários:








Assista também:
 








Um depoimento de um ex-guerrilheiro sobre o processo de julgamento de um inimigo da causa e seu consequente assassinato: decidiu-se que o cidadão não fazia parte da causa e, como inimigo, devia morrer. É morto com um tiro de fuzil.O cara poderia, pelo menos chorar um pouco, e a música de fundo até ajudaria a causar um efeito dramático. A calma com a qual relata os fatos é tocante...



O período visto sob o ponto de vista de  Bolsonaro e Chiarelli. Espero que não tape os ouvidos para a voz desses dois expoentes por se trara de reles homens "de direita":


E os dólares de Brizola? Será que essa história será apurada pela comissão "da verdade" ?











E por fim o depoimento da jornalista Miriam Macedo, que corajosa confessa em seu blog num post de 5 de julho de 2011 a verdade: ela mentiu:

Eu, de minha parte, vou dar uma contribuição à Comissão da Verdade, e contar tudo: eu era uma subversivazinha medíocre e, tão logo fui aliciada, já caí(jargão entre militantes para quem foi preso), com as mãos cheias de material comprometedor.       

       Despreparada e festiva, eu não tivera nem o cuidado de esconder os exemplares  d'A Classe Operária, o jornal da organização clandestina a que eu pertencia (a AP-ML, ala vermelha maoísta do PC do B, a mesma que fazia a Guerrilha do Araguaia, no Pará). 

      Os jornais estavam enfiados no meio dos meus livros numa estante, daquelas improvisadas, de tijolos e tábuas, que existiam em todas as repúblicas de estudantes, em Brasília naquele ano de 1973. 

       Já relatei o que eu fazia como militante*. Quase nada. A minha verdadeira ação revolucionária foi outra, esta sim, competente, profícua, sistemática: MENTI DESCARADAMENTE DURANTE QUASE 40 ANOS!* (O primeiro texto fala em 30 anos. Eu fui fazer as contas, são quase 40 anos, desde que comecei a mentir sobre os 'maus tratos'. Façam as contas, fui presa em 20 de junho de 73. Em 2013, terão se passado 40 anos.)

       Repeti e escrevi a mentira de que eu tinha tomado choques elétricos (por pudor, limitei-me a dizer que foram poucos, é verdade), que me deram socos e empurrões, interrogaram-me com luzes fortes, que me ameaçaram de estupro quando voltava à noite dos interrogatórios no DOI-CODI para o PIC e que eu passava noites ouvindo "gritos assombrosos" de outros presos sendo torturados (aconteceu uma única vez, por pouquíssimos segundos: ouvi gritos e alguém me disse que era minha irmã sendo torturada. Os gritos cessaram - achei, depois, que fosse gravação - e minha irmã, que também tinha sido presa, não teve um único fio de cabelo tocado). 

      Eu também menti dizendo que meus algozes, diversas vezes, se divertiam jogando-me escada abaixo, e, quando eu achava que ia rolar pelos degraus, alguém me amparava (inventei um 'trauma de escadas", imagina). A verdade: certa vez, ao descer as escadas até a garagem no subsolo do Ministério do Exército, na Esplanada dos Ministérios, onde éramos interrogados, alguém me desequilibrou e outro me segurou, antes que eu caísse. 

      Quanto aos 'socos e empurrões' de que eu dizia ter sido alvo durante os dias de prisão, não houve violência que chegasse a machucar; nada mais que um gesto irritado de qualquer dos inquisidores; afinal, eu os levava à loucura, com meu enrolation. Eu sou rápida no raciocínio, sei manipular as palavras, domino a arte de florear o discurso. Um deles repetia sempre: "Você é muito inteligente. Já contou o pré-primário. Agora, senta e escreve o resto". 

      Quem, durante todos estes anos, tenha me ouvido relatar aqueles 10 dias em que estive presa, tinha o dever de carimbar a minha testa com a marca de "vítima da repressão". A impressão, pelo relato, é de que aquilo deve ter sido um calvário tão doloroso que valeria umanota preta hoje, os beneficiados com as indenizações da Comissão da Anistia sabem do que eu estou falando. Havia, sim, ameaças, gritos, interrogatórios intermináveis e, principalmente, muito medo (meu, claro).

       Torturada?! Eu?! Ma va! As palmadas que dei em meus filhos podem ser consideradas 'tortura inumana' se comparadas ao que (não) sofri nas mãos dos agentes do DOI-CODI. 

Que teve gente que padeceu, é claro que teve.  Mas alguém acha que todos nós que saíamos da cadeia contando que tínhamos sido 'barbaramente torturados' falávamos a verdade? 

      Não, não é verdade. A maioria destas 'barbaridades e torturas' era pura mentira! Por Deus, nós sabemos disto! Ninguém apresentava a marca de um beliscão no corpo. Éramos 'barbaramente torturados' e ninguém tinha uma única mancha roxa para mostrar! Sei, técnica de torturadores. Não, técnica de 'torturado', ou seja, mentira. Mário Lago, comunista até a morte, ensinava: "quando sair da cadeia, diga que foi torturado. Sempre." 

     Na verdade, a pior coisa que podia nos acontecer naqueles "anos de chumbo" era não ser preso(sic). Como assim todo mundo ia preso e nós não? Ser preso dava currículo, demonstrava que éramos da pesada, revolucionários perigosos, ameaça ao regime, comunistas de verdade! Sair dizendo que tínhamos apanhado, então! Mártires, heróis, cabras bons.

       Vaidade e mau-caratismo puros, só isto. Nós saíamos com a aura de hérois e a ditadura com a marca da violência e arbítrio. Era mentira? Era, mas, para um revolucionário comunista, a verdade é um conceito burguês, Lênin já tinha nos ensinado o que fazer. 

       E o que era melhor: dizer que tínhamos sido torturados escondia as patifarias e 'amarelões' que nos acometiam quando ficávamos cara a cara com os "ômi". Com esta raia miúda que nós éramos, não precisava bater. Era só ameaçar, a gente abria o bico rapidinho. 

      Quando um dia, durante um interrogatório, perguntaram-me  se eu queria conhecer a 'marieta', pensei que fosse uma torturadora braba. Mas era choque elétrico (parece que 'marieta' era uma corruptela de 'maritaca', nome que se dava à maquininha usada para dar choque elétrico). Eu não a quis conhecer. Abri o bico, de novo. 
      Relembrar estes fatos está sendo frutífero. Criei coragem e comecei a ler um livro que tenho desde 2009 (é mais um que eu ainda não tinha lido): "A Verdade Sufocada - A história que a esquerda não quer que o Brasil conheça", escrito pelo coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra. Editora Ser, publicado em 2007. Serão quase 600 páginas de 'verdade sufocada"? Vou conferir.

Fonte do texto de Miriam Macedo: http://blogdemirianmacedo.blogspot.com.br/2011/06/verdade-eu-menti_05.html, visitado em 31 de março de 2011.

À propósito, consegui resgatar uma foto da manchete de capa do jornal O Globo, de 2 de abril de 1964:

Fonte: http://acertodecontas.blog.br/politica/editorial-do-jornal-o-globo-de-2-de-abril-de-1964-celebrando-o-golpe-militar/, visitado em 2 de abril de 2012.

O título não deixa espaço para dúvidas: ressurge a democracia. Como poderiam reagir - e reagirão - os opositores ao regime militar? Simples: nesses casos em que um órgão de imprensa está envolvido, contestar sua honestidade é de praxe. Basta dizer que "O Globo" é um jornal de direita e que, portanto, representa uma "ideologia" que não merece respeito, e pronto!

E por falar em rede Globo, uma reportagem da época em que o então general Newton Cruz agride um jornalista da referida emissora em rede nacional de Tv:



Anos depois o mesmo general concederia essa entrevista onde, entre outros assuntos, fala sobre o caso da agressão à imprensa:





Algumas das frases da entrevista:

"Não se esqueça que essa gente fala sobre tortura como se nunca tivesse torturado ninguém. Você acha que pegar um embaixador, um homem acostumado a ser reverenciado, botar num carro a coronhadas, matar seu segurança, e depois ficar num quartinho de dois por dois e ameaçá-lo não é tortura?" - Sobre o caso que serviu de base para o filme "O que é isso companheiro".

"Aqueles que estão hoje no poder deveriam nos agradecer de joelhos".

"Eu não tenho a menor dúvida de que o Herzog foi um suicida" - Eu, nem tanto general...

Num dado momento da entrevista, Leônidas afirma que "hoje em dia todo mundo diz que foi torturado pra ganhar bolsa-ditadura". Com base no caso da jornalista Miriam Macedo, podemos bem acreditar nisso... E como o ex-militar nota em sua entrevista, o relato sobre o passado se converte na verdade mesma sobre o passado.

Outro nome muito citado quando o assunto é a ditadura militar, é o do ex-cabo Anselmo, que ficou conhecido como um agente traidor da "causa". Na entrevista abaixo inserida, ele é entrevistado pelo Roda Viva, programa da Tv Cultura:




E aqui no Canal Livre, programa da rede Bandeirantes de televisão:


O vídeo a seguir trás não um debate sobre o tema, mas uma evidente inquisição de 4 contra 1. Seja como for, vale a pena ver também:



Uma entrevista com ninguém mais ninguém menos que Jarbas Passarinho, o homem que assinou o AI-5:




Comentário de Boris Casoy à respeito da comissão da "verdade":



Palestra sobre o regime militar no Clube Militar:



No dia 26 de maio de 2012 o célebre jurista brasileiro Ives Granda assinou um artigo no Estadão sobre a "comissão da verdade" colocando sua opinião sobre a mesma. Segue o texto na íntegra:

IVES GANDRA SILVA MARTINS, professor emérito das universidades Mackenzie, Unip, Unifieo, UniFMU, do CIEE-SP, da ESG e da ECEME; fundador e presidente honorário do CEU/IICS; é autor de "Uma Breve Teoria do Poder" - O Estado de S.Paulo
Depois de muita expectativa - e com grande exposição na mídia -, foi constituída comissão para "resgatar a verdade histórica" de um período de 42 anos da vida política nacional, objetivando, fundamentalmente, detectar os casos de tortura na luta pelo poder. A História é contada por historiadores, que têm postura imparcial ao examinar os fatos que a conformaram, visto serem cientistas dedicados à análise do passado. Os que ambicionam o poder fazem a História, mas, por dela participarem, não têm a imparcialidade necessária para a reproduzir.
A Comissão da Verdade não conta, em sua composição, com nenhum historiador capaz de apurar, com rigor científico, a verdade histórica da tortura no Brasil, de 1946 a 1988. O primeiro reparo, portanto, que faço à sua constituição é o de que "não historiadores" foram encarregados de contar a História daquele período. Conheço seis dos sete membros da comissão e tenho por eles grande respeito, além de amizade com alguns. Não possuem, no entanto, a qualificação científica para o trabalho que lhes foi atribuído.
O segundo reparo é que estiveram envolvidos com os acontecimentos daquele período. Em debate com o ex-deputado Ayrton Soares, em programa de Mônica Waldvogel, perguntou-me o amigo e colega - que defendia a constituição de comissão para essa finalidade, enquanto eu não via necessidade de sua criação - se eu participaria dela, se fosse convidado. Disse-lhe que não, pois, apesar de ser membro da Academia Paulista de História, estive envolvido nos acontecimentos. Inicialmente, dando apoio ao movimento para evitar a ameaça de ditadura e garantir as eleições de 1965, como, de resto, fizeram todos os jornais da época. No dia 2 de setembro de 1964, o jornal O Globo, em seu editorial, escrevia: "Vive a nação dias gloriosos. Porque souberam unir-se todos os patriotas, independentemente de vinculações políticas, simpatias ou opinião sobre problemas isolados, para salvar o que é essencial à democracia, a lei, a ordem".
A partir do Ato Institucional n.º 2/65, que suprimiu as eleições daquele ano, opus-me a ele, o ponto de, em 13 de fevereiro de 1969, ter sido pedido o confisco de meus bens e a abertura de um inquérito policial militar sobre minhas atividades de advogado, por defender empresa que não agradava ao regime. O mais curioso é que continuei como advogado, tendo derrubado a prisão de seus diretores, no Supremo Tribunal Federal, em 1971, por 5 a 3, à época em que os magistrados não se curvavam ao poder da mídia ou dos detentores do poder. Embora arquivados os dois pedidos, o fato de ter sido anunciada a abertura do processo contra mim, pelos jornais, com grande sensacionalismo, tive minha advocacia abalada por alguns anos. Nem por isso pedi indenizações milionárias ao governo atual, nem pedirei. À época apoiei a Anistia Internacional, tendo entrado para seus quadros sob a presidência de Rodolfo Konder, e fui conselheiro da OAB-SP por seis anos, antes da redemocratização. À evidência, faltar-me-ia, por mais que quisesse ser imparcial, a tranquilidade necessária para examinar os fatos com isenção. Envolvidos da época não podem adotar uma postura neutra ao contar os fatos históricos de que participaram.
O terceiro reparo é que alguns de seus membros pretendem que a verdade seja seletiva. Tortura praticada por guerrilheiro não será apurada, só a que tenha sido levada a efeito por militares e agentes públicos. O que vale dizer: lança-se a imparcialidade para o espaço, dando a impressão que guerrilheiro, quando tortura, pratica um ato sagrado; já os militares, um ato demoníaco. Bem disse o vice-presidente da República, professor Michel Temer, em São Paulo, no último dia 17, que os trabalhos da comissão devem ser abrangentes e procurar descobrir os torturadores dos dois lados.
O quarto reparo é que muitos guerrilheiros foram treinados em Cuba, pela mais sangrenta ditadura das Américas no século 20. Assassinaram-se, sem direito a defesa, nos paredões de Fidel Castro mais pessoas do que na ditadura de Pinochet, em que também houve muitas mortes sem julgamento adequado. Um bom número de guerrilheiros não queria, pois, a democracia, mas uma ditadura à moda cubana. Radicalizaram o processo de redemocratização a tal ponto que a imprensa passou a ser permanentemente censurada. Estou convencido de que esse radicalismo e os ideais da ditadura cubana que o inspiraram apenas atrasaram o processo de redemocratização e dificultaram uma solução acordada e não sangrenta.
O quinto aspecto que me parece importante destacar é que, a meu ver, a redemocratização se deveu ao trabalho da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), que se tornou a voz e os pulmões da sociedade. Liderada por um brasileiro da grandeza de Raimundo Faoro, conseguiu, inclusive, em pleno período de exceção, com apoio dos próprios guerrilheiros, aprovar a Lei da Anistia (1979), permitindo, pois, que todos voltassem à atividade política. Substituindo as armas de fogo pela arma da palavra, a OAB deu início à verdadeira redemocratização do País.
Por fim, num país que deveria olhar para o futuro, em vez de remoer o passado - tese que levou guerrilheiros, advogados e o próprio governo militar a acordarem a Lei da Anistia, colocando uma pedra sobre aqueles tempos conturbados -, a comissão é inoportuna. Parafraseando Vicente Rao, esta volta ao pretérito parece ser contra o "sistema da natureza, pois para o tempo que já se foi, fará reviver as nossas dores, sem nos restituir nossas esperanças" (O Direito e a Vida dos Direitos, Ed. Revista dos Tribunais, 2004, página 389).
Estou convencido de que tudo o que ocorreu no passado será, no futuro, contado com imparcialidade, não pela comissão, mas por historiadores, que saberão conformar para a posteridade a verdade histórica de uma época.
Fonte: http://www.estadao.com.br/noticias/impresso,a-comissao-da-verdade--e-a-verdade-historica-,878143,0.htm visitado em 29 de maio de 2012.

E clicando neste link vocês poderão ler o livro do coronel Brilhante Ulstra, "A verdade sufocada", e, assim, descobrir algo de encoberto pelas escolas. 


A comissão da "verdade" visa apurar a "verdade". Devemos nos perguntar à qual verdade se referem. Se a justiça deve mesmo buscar a maior imparcialidade possível - e assim creio - cabe ouvir ambos os lados, e constituir uma comissão julgadora formada por representantes da luta armada militar e guerrilha. Só assim aqueles que, em ambos os lados, cometeram atrocidades, poderão ser julgados segundo seus atos e cada qual receber sua sentença. É importante notar que, também nesse ponto, é fundamental que o poder da grana não fale mais alto.