domingo, 5 de fevereiro de 2012

Sócrates diante da morte:




Porque morrer é uma ou outra destas duas coisas: ou o morto não tem absolutamente nenhuma existência, nenhuma consciência do que quer que seja, ou, como se diz, a morte é precisamente uma mudança de existência e, para a alma, uma migração deste lugar para um outro. Se, de fato, não há sensação alguma, mas é como um sono, a morte seria um aravilhoso presente. Creio que, se alguém escolhesse a noite na qual tivesse dormido sem ter nenhum sonho, e comparasse essa noite às outras noites e dias de sua vida e tivesse de dizer quantos dias e noites na sua vida havia vivido melhor, e mais docemente do que naquela noite, creio que não somente qualquer indivíduo mas até um grande rei acharia fácil escolher a esse respeito, lamentando todos os outros dias e noites. Assim, se a morte é isso, eu por mim a considero um presente, porquanto, desse modo, todo o tempo se resume a uma única noite.

Se, ao contrário, a morte é como uma passagem deste para outro lugar, e, se é verdade o que se diz que lá se encontram todos os mortos, qual o bem que poderia existir, ó juízes, maior do que este? Porque, se chegarmos ao Hades, libertando-nos destes que se vangloriam serem juízes, havemos de encontrar os verdadeiros juízes, os quais nos diria que fazem justiça acolá: Monos e Radamante, Éaco e Triptolemo, e tantos outros Deuses e semideuses que foram justos na vida; seria então essa viagem uma viagem de se
fazer pouco caso? Que preço não serieis capazes de pagar, para conversar com Orfeu, Museu, Hesíodo e Homero? Quero morrer muitas vezes, se isso é verdade, pois para mim especialmente a conversação acolá seria maravilhosa quando eu encontrasse Palamedes e Ajax Telamônio, e qualquer um dos antigos, mortos por injusto julgamento. E não seria sem deleite, me parece, confrontar o meu com os seus casos e, o que é melhor, passar o tempo examinando e confrontando os de lá com os de cá, os últimos dos quais tem a pretensão de conhecer a sabedoria dos outros, e acreditam ser sábios sem o ser. A que preço, ó juízes, não se consentiria em examinar aquele que guiou o grande exército a Tróia, Ulisses, Sísifo, ou os incontáveis outros? Isso constituiria inefável felicidade. Com certeza aqueles de lá são mais felizes do que os de cá, mesmo porque, são imortais, se é que o que se diz é verdade. 

Platão, apologia de Sócrates


Sugestão de leitura:

PLATÃO. Apologia de Sócrates
_______. Fedon

É sobretudo nas duas obras acima indicadas que Sócrates, professor de Platão, disserta com maior profundidade sobre o problema da morte. No primeiro caso, o pensador ateniense se encontra diante daqueles que decidiram seu destino: impuseram-lhe a pena capital, a qual Sócrates - pelo menos segundo Platão - encara com coragem. Esse sentimento ambíguo que afeta o filósofo ante seus momentos finais tem um que de ansiedade e fascínio, receio e anseio. Não obstante, é por conta da filosofia que o velho sábio não perde sua capacidade de refletir sobre as grandes questões da vida, sobretudo essa, nosso destino comum. Para Sócrates, uma vida não analisada não mereceria ser vivida. Essa análise, que se dá por meio da filosofia, serviria de preparação para a morte. Em Fédon, Sócrates, encarcerado, ante seus minutos finais, discorre sobre o mistério do além túmulo e afirma a fé numa vida póstuma, numa outra dimensão. Resistiria, portanto, a alma. 

Seja como for, Sócrates resiste como estímulo, como uma fotografia de seu período atualizada pela história, e segundo já foi dito, toda a história da filosofia é uma nota de rodapé em Platão. Se é, e de fato é, dado que a a filosofia ocidental tem seu berço com os gregos, então toda a história da filosofia é um comentário sobre Platão e sobre seu mestre, Sócrates, que, esteja onde estiver, aqui e agora, na leitura deste texto, estará.






Ah, você tá interessado na morte desse Sócrates:


Então clique aqui.

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

Grotowski e o multiculturalismo:


 Cada vez que os alicerces começarem a tremer sob seus pés, cada vez que não estiver seguro da estabilidade de suas experiências passadas, regresse às suas origens.

- Grotowski -



É por isso que a ideia mesma do multiculturalismo - ainda que importante como princípio de respeito à complexidade plural das culturas várias que constituem aquele ente anônimo que chamamos à título de simplificação de "humanidade" - pode servir a objetivos outros, à vilania de oligarquias que querem exercer o poder sobre uma massa acéfala e desencantada do que lhes confere caráter e unidade: a cultura.


Sugiro a leitura da obra de Stuar Hall, culturalista jamaicano que, em seu livro "A identidade cultural na pós-modernidade", percebe que vivemos um estado de coisas em que a cultura se torna desenraizada, ela atravessa identidades antes geograficamente estabelecidas para se determinar como topos global. Sobretudo a internet possibilita esse trânsito e dilui qualquer nexo local pelas conexões com identidades simulacro, informação em abundância. Mas informação, formação, conhecimento e sabedoria, e, ainda Sabedoria, são coisas diferentes. A crise da pós-modernidade tem uma raíz na epstemologia de Kant, que por sua vez tem um pé em Descartes: o penso, logo existo, motivou um espírito idealista que acaba por diluir qualquer ideia de "verdade" num relativismo que chega ao absurdo: o significado vazio, dado que o significante, aquilo que é objeto de significação, não é, em suma, nada em si (a coisa em si é incognoscível, dizia Kant, que Peirce adorava). Quanto aos valores morais, súbito se transformam em construções culturais e, assim, relativos. O que resta como valor absoluto é o metal, que só não é mais vil do que quem dele faz uso.

Hoje em dia eu discordo de alguns pontos em Grotowski, sobretudo quando propõe o teatro como um ritual laico que substitua o ritual religioso, mas ele foi, sem sombra de dúvidas, um grande pensador e realizador em sua arte.

A anti-catarse do absurdo:




Em poucas palavras, direi ainda, em relação aos trágicos, que não faziam por sabedoria aquilo que faziam, mas por certa natural inclinação e intuição, como os adivinhos e os vates; e embora digam muitas e belas coisas, não sabem nada daquilo dizem. O mesmo parece acontecer com os outros poetas; e também me recordo que eles, por causa de suas poesias, acreditavam-se homens sapientíssimos ainda em outras coisas, nas quais não eram. Por essa razão, então andei pensando que nisso eu os superava, pela mesma razão que superava os políticos.

Platão, Apologia de Sócrates

A nota socrática sobre os poetas trágicos nos aponta para um nome em particular, que, nesse contexto, sobressai sobre os demais tragediógrafos e comediógrafos gregos: Aristófanes. Foi ele quem aproveitou-se da peça As nuvens para tecer comentários críticos sobre a pessoa de Sócrates, tido pelos partidários da democracia como corruptor da juventude, dado que dava força mesmo a mais débil lógica. Para um moderno, Sócrates pode ser descrito como filósofo irônico, e seus diálogos com os sofistas só fazem revelar o gênio de um sábio que tinha em sua dúvida a pedra de toque de sua sapiência: só sei que nada sei: sua máxima mais famosa, ao lado do "conhece-te a ti mesmo". Mas o "conhece-te a ti mesmo" socrático é um conhecer-se a si mesmo pela relação com os outros, o que implica em conflito. 

Quando Platão lança sua crítica ao caráter corruptor da mímese, no décimo livro da República, parece ecoar princípios que saltam das páginas de seus diálogos, e que traçam algumas pinceladas sugestivas sobre essa  figura tão importante para a cultura ocidental. O conhece-te a ti mesmo socrático é um conhecer-se a si mesmo pela e através da relação com o outro, o que implica em conflito, instala a tensão: entramos, assim, no campo do drama: ação. Condenados ao agir, somos nós atores de nossa própria existência, concordo com Sartre - ao que pese não rebelar-me contra a metafísica como fez o filósofo francês. Curiosamente ele, Sartre, também se dedicou à dramaturgia. Curiosamente, Platão escrevia como quem redige uma peça teatral: são diálogos cheios de imagens impactantes, conflitos, tensão. Talvez Aristóteles tenha razão: aprendemos pela imitação: a tragédia tem uma função pedagógica, a saber, a de expor num âmbito ficcional a tragédia humana de forma artística.

Hoje, para muito além da sociedade do espetáculo, a tragédia se transforma em farsa, e o teatro do caos, realidade cotidiana que nos fere, serve de anestesia contra o efeito catártico que a tragédia proporcionaria, e, assim, o drama perde sua função pedagógica. São signos que remetem a outros signos, que fazem menção a outros signos de outros signos, e nessa dança todo significado se esvai. Perdidos num niilismo, a vida mesma se transforma em significante vazio, absurdo cotidiano que nem Beckett poderia prever. 

domingo, 29 de janeiro de 2012

Sociedade psicopática:


A psicopatia é coletiva, um mal que disputa espaço com a depressão querendo alcançar o pódio: qual delas é a pior desgraça de nosso tempo? De acordo com a psicóloga Ana Beatriz Barbosa Silva, "vivemos em uma sociedade que planta valores psicopáticos", valores esses pautados pela guerra cega pelo prestígio a todo custo, e onde o passar por cima dos outros para conquistar seu filão se torna o comum. De repente alguém ganha fama pelo simples fato de ser rico, só por isso, nada mais, e, ainda que sua fortuna tenha sido galgada pelo roubo, tanto faz, é rico e famoso, portanto, ídolo. 

Ana distingue entre psicopatas leves e graves, sendo os primeiros mais numeráveis que os segundos, mas muito comuns entre nós. Segundo ela, uma em cada quatro pessoas é um psicopata. A princípio julguei um absurdo, e talvez você também julgará, por isso sugiro que assista a entrevista que a doutora concedeu ao programa Happy Hour:


sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

Um tango para Nelson Rodrigues:



Nelson Rodrigues

Salim deixa a agonizante e dança "A média luz" como se fosse , realmente, Rodolfo Valentino nos "Quatro cavaleiros do apocalipse"

- Rubrica de cena em Anti-Nelson Rodrigues, de Nelson Rodrigues.


Cena de "Os quatro cavaleiros do apocalipse", com Rodolfo Valentino:


E "Média-Luz", clássico do tango, na voz de Carlos Gardel:


Não é à toa que Arnaldo Jabor escolheu Fuga nº9 para soar na introdução da versão por ele cinematografada de "Toda a nudez será castigada", baseada na peça homônima de Nelson Rodrigues:


*Infelizmente não encontrei uma cena do filme com um tango de fundo, mas fica a dica: vale a pena assisti-lo.

E que também um tango serviu de trilha sonora para a introdução dos capítulos de Engraçadinha, minissérie veiculada pela Rede Globo de Televisão em 1995, também baseada numa obra rodrigueana:



E também um tango no começo de cada episódio de "A vida como ela é ...", exibidos pela mesma emissora em 1997 e também baseados em textos do Nelson:



Resumo da ópera: Nelson e um tango combinam muito bem. Sugestão: ligue o som e ouça um tango bem furioso enquanto lê Nelson Rodrigues.

quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

Não engulamos essa SOPA podre:





Desde há algum tempo atrás venho alertando os leitores do blog sobre um projeto de censura à internet. Sei que a ideia parece um absurdo, coisa de "teoria da conspiração", ou algo do tipo, mas o fato é que, sim, contra a vontade daqueles que como nós fazem uso da rede para a publicação e compartilhamento de informação, medidas drásticas têm sido tomadas por trás das cortinas do sujo jogo da política internacional para controlar o fluxo de informações na rede. 

A velha máxima dita que "quem controla a informação controla tudo", e de fato a amplitude que a visão de um observador alcança relativamente ao objeto analisado denuncia a fonte que ilumina a imagem: a informação alimenta, nutre, e pode ser um veneno ou um remédio. Contra aqueles que nos querem cegos, temos a luz de pixels ativos que grafam desejos em um grande mural de ideias, um mural multifacetado e plural como é a comunidade global, com suas múltiplas formas, cores, credos, línguas e costumes, mas que tem como sustento comum o ato de compartilhar. Vetar o acesso à rede pela livre transmissão de informação é calar nossas vozes, desejo declarado abertamente por aqueles prefere ditar as regras do jogo e não gosta muito de "pessoas de opinião". O livre compartilhamento de músicas e vídeos pela rede não é ato de roubo, é uma troca, e estratégia que mesmo vários artistas - tais como Radio Head, e mais recentemente, no Brasil, o rapper Criolo - têm usado para divulgar seus trabalhos.

Venho pedir encarecidamente para que os leitores do blog filiem-se a essa batalha que está sendo travada silenciosamente nos EUA, mas que afeta diretamente nossas vidas online, já que a maior parte dos sites de compartilhamento de mídias, como o YouTube, o Megaupload - recentemente bloqueado - e outros tantos tem sede lá.

Clique aqui e assine o abaixo-assinado contra a aprovação da SOPA, projeto de lei que tramita no congresso americano e visa derrubar sites que remetessem a links que poderiam, talvez, direcionar a conteúdo pirata, como, por exemplo, o Google, o YouTube, etc...


Obrigado por participar dessa corrente pela liberdade.

Kubrick, sobre o teatro:



(...) acho que não existe nada que realmente substitua o grande momento dramático, totalmente encenado. Mesmo assim, as histórias que contamos nos filmes estão basicamente enraizadas no teatro.

Stanley Kubrick