sexta-feira, 10 de janeiro de 2014

Tom Zé é bom de lábia, ou: nada de novo no "funk carioca".


Nessa entrevista Tom Zé conta sobre quando negou-se a escrever um release do álbum do "É o tchan" por causa da qualidade que, ao que deixa entender, considerou baixa, e por conta do discurso que a música traz: "é a bundinha pra cá, é a bundinha pra lá", como ele mesmo diz:


No entanto, mais recentemente, vem colecionando elogios ao funk carioca, e curiosamente pelo mesmo motivo que serviu, antes, de razão para negar-se a escrever um release do CD do "É o Tchan". A única diferença é que em "Tô ficando atoladinha", a figura de linguagem empregada é a metáfora: onde a "cantora" diz estar ficando atolada na areia, compreendemos, é claro, que ela está dando o cu, a boceta ou o que lhe valha, que o cara que conversa com ela na música está atolando nela, em suma. Também temos o "piririn", que faz as vezes de onomatopeia do som do telefone chamando - mas Tom Zé não fala nisso - e a ocorrência de microtons que, segundo Tom Zé, são uma espécie de afronta à opressão promovida pela Igreja Católica contra a mulher... esse papo intelectualóide que já virou clichê faz um tempinho:



Bem, vejamos o que diz a letra da letra diz:

- Alô?
- Qual é foguenta?
- Quem tá falando?
- Sou eu, Bola De Fogo. E aê? Tá de bobeira hoje?
- Tô.
- Vâmo dá um rolé na praia, mó solzão praia da Barra...
- Já é..
- Então vou ai te buscar,valeu?
- Valeu...
- Então fui!!!
Piririn, piririn, piririn
- Alguém ligou pra mim
Piririn, piririn, piririn
- Alguém ligou pra mim
- Quem é?
- Sou eu, Bola de Fogo,
e o calor ta de matarVai ser na praia da BarraQue uma moda eu vou lançar
 - Vai me enterrar na areia?
- Não, não, vou atolar
- Vai me enterrar na areia?
- Não, não vou atolar
- To ficando atoladinha
To ficando atoladinha
To ficando atoladinha
- Calma,calma foguentinha
A metáfora é uma figura de linguagem que se caracteriza pelo uso de termos que possam ser lidos não pelo sentido literal do mesmo, mas por seu sentido conotativo produzido pela relação de semelhança de qualidade entre o signo empregado e um outro signo associativo. Explicando melhor com um exemplo, temos:

- Seu coração é de pedra.
- Sim, mas ele bate por ti.

Acima, temos a expressão "coração de pedra", locução adjetiva que significa "coração duro", "insensível". A associação vem por meio da característica da pedra, a de ser dura, e da dureza como adjetivo referido à insensibilidade do portador de tal órgão endurecido, petrificado, incapaz - como uma pedra - de demonstrar sentimentos. Metáforas assim, que sugerem duplo sentido, não são uma invenção do funk carioca. Elas são características das piadas de duplo sentido e de músicas de outros estilos e épocas.

Pois essa é a tal da "polisemiótica", ou "polissemântica" (bonito o termo não?) apontada por Tom Zé em "Tô ficando atoladinha": pura e simplesmente a diversidade de significados: o termo "atoladinha", no caso, significa na "música" da funkeira carioca, tanto atolada na areia quando no sentido sexual. Basta isso, e uma volta gigantesca possível graças a vários termos complexos desses de deixar o ouvinte com cara de espanto, pra dizer que "Tô ficando atoladinha" é uma música que desafia os cânones da música tonal ocidental e é rica porque polisemiótica. 

Também no que diz respeito a microtonalidade, nem nisso "Tô ficando atoladinha" é tão "revolucinária" e transgressora quanto Tom Zé faz parecer. Saltos de quartos de tom já acontecem na música oriental de um Ravi Shankar, por exemplo, que no século passado "transou" (no sentido de se encontrou, dialogou, se misturou), por exemplo, com George Harrison:



No caso acima, o da cítara, a ocorrência de microtons dá-se por conta da própria estrutura do instrumento, que por não ser temperado, alcança as notas e por elas passeia como que por bends, elevações que fogem daquela dos instrumentos temperados. O mesmo pode ocorrer com o violino, o cello, e na guitarra, no caso dos bends muito comuns ao blues. Vamos ouvir um exemplo? Ele se encontra no final do solo de "Smoke on the water", uma das mais conhecidas músicas da banda Deep Purple (ver principalmente de 3:32 a 3:45):




Os tais microtons aparecem com muita frequência também na música vocal do século XX, principalmente, vejam só, mais uma vez, no blues. Como exemplo, vejam o solo vocal dessa negra maravilhosa em Gimme Shelter, dos Rolling Stones:



 Nota: A respeito especificamente dos microtons nos bends de blues, existe uma Cover Guitarra antiga que traz uma entrevista com Almir Stocker (Alemão ) e Heraldo do Monte, ambos guitarristas brasileiros de muita importância no cenário nacional, onde o segundo comenta sobre microtons produzidos pelos bends. No caso específico da guitarra, também o efeito chamado "whammy" provoca esse passar por frequências que quebra a lógica semitonal do sistema temperado, e olha que de um jeito muito mais legal e interessante que em "Tô ficando atoladinha":



Moral da história: mesmo o que há de mais pobre (no sentido de simplista, burro, sem qualidade, não no sentido econômico do termo) no mundo pode parecer belo, revolucionário, rico e incrivelmente maravilhoso, dependendo do discurso que é tecido a respeito do assunto. No caso, é fácil apenas repetir o dito por Tom Zé e, pegando carona em sua fama, pagar de "intelectual" também, ou então, em resposta aos críticos de Tom Zé, dizer pura e simplesmente que são derrotados, pessoas sem cultura e sem inteligência que não podem ferir uma personalidade intocável, por assim dizer. É o velho ad hominem já conhecido nosso de cada dia.

Observação importante: esse post acaba servindo para algo que eu realmente não quero, a saber, fazer propaganda desse tipo de "música" (sic), o funk carioca. Mas por outro lado, pode acabar servindo para apresentar àqueles que consomem esse lixo música de qualidade. Quem sabe? A esperança é a última que morre.


Veja também: Est(ética) e Verdade.

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